{"id":9052,"date":"2020-02-25T08:50:44","date_gmt":"2020-02-25T11:50:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/?p=9052"},"modified":"2025-02-13T17:34:19","modified_gmt":"2025-02-13T20:34:19","slug":"toda_lingua_e_rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/2020\/02\/25\/toda_lingua_e_rio\/","title":{"rendered":"Toda l\u00edngua \u00e9 rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row css_animation=&#8221;&#8221; row_type=&#8221;row&#8221; use_row_as_full_screen_section=&#8221;no&#8221; type=&#8221;full_width&#8221; angled_section=&#8221;no&#8221; text_align=&#8221;left&#8221; background_image_as_pattern=&#8221;without_pattern&#8221;][vc_column][vc_column_text]<\/p>\r\n<p>Uma pol\u00eamica em torno das mat\u00e9rias exibidas no dia 17\/05 na Rede Globo e transmitidas pela R\u00e1dio CBN [1. Este artigo foi publicado em uma vers\u00e3o reduzida no<em> Jornal do Commercio<\/em>, na se\u00e7\u00e3o\u00a0&#8220;Opini\u00e3o&#8221;, no dia 23 de junho de 2011]. As mat\u00e9rias fazem refer\u00eancia a trechos do cap\u00edtulo 1 do livro de L\u00edngua Portuguesa<em> Por uma vida melhor<\/em>, de adotado pelo MEC para o ensino de jovens e adultos (EJA).\u00a0 Segundo os jornalistas, claramente tendenciosos em suas falas, e alguns entrevistados, o conte\u00fado do livro atentava contra a &#8220;unidade da l\u00edngua portuguesa&#8221; (SIC), representava &#8220;uma invers\u00e3o de valores&#8221;.<\/p>\r\n<!-- \/wp:post-content -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Em nota oficial, a Academia Brasileira de Letras diz &#8220;estranhar certas posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas dos autores de livros que chegam \u00e0s m\u00e3os de alunos dos cursos Fundamental e M\u00e9dio com a chancela do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o&#8221;. Nesse \u00faltimo caso, a ABL critica a confus\u00e3o que se faz entre gram\u00e1tica normativa e descritiva e considera um erro a ado\u00e7\u00e3o de uma did\u00e1tica que prev\u00ea o uso da &#8220;lingu\u00edstica sincr\u00f4nica com preocupa\u00e7\u00f5es normativas&#8221;.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Aqui, elevamos um pouco mais o di\u00e1logo: considerar a l\u00edngua como um sistema estanque, como simples estrutura a ser &#8220;preservada&#8221; e &#8220;cultivada&#8221; \u00e9 um equ\u00edvoco igualmente grave. N\u00e3o s\u00f3 porque vai contra a natureza mut\u00e1vel de todas l\u00ednguas, mas porque tamb\u00e9m remete a outro mito antigo, o da &#8216;unidade lingu\u00edstica&#8217; do Brasil. Ou vamos enterrar de vez as l\u00ednguas ind\u00edgenas faladas em territ\u00f3rio nacional (<a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/brasil\/segundo-ibge-274-linguas-indigenas-sao-faladas-no-brasil,24cfdc840f0da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html\">cerca de 274 identificadas at\u00e9 hoje<\/a>)?<\/p>\r\n<p><!-- \/wp:paragraph -->\u00a0<\/p>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<h3>Varia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica e preconceito<\/h3>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph --><span class=\"pullquote\">Abordagens &#8220;<a href=\"https:\/\/www.normaculta.com.br\/sincronia-e-diacronia\/\">sincr\u00f4nicas<\/a>&#8221; podem conviver com contraste normativo, ao contr\u00e1rio do que acreditam os senhores da ABL, que devem estar longe da sala de aula h\u00e1 algum tempo. Utilizar a variante do aluno ou que &#8220;normalmente se fala&#8221; como um ponto de partida \u00e9 completamente v\u00e1lido didaticamente para mostrar os contrastes com o padr\u00e3o, nosso objeto de estudo, mas n\u00e3o o \u00fanico objeto de an\u00e1lise. N\u00e3o se pode, no entanto, como fazem alguns professores, ridicularizar o que chamam de &#8220;portugu\u00eas errado&#8221;, ou de &#8220;gente sem instru\u00e7\u00e3o&#8221;, ou de &#8220;fala de pobre&#8221;.<\/span> Eis o verdadeiro debate que se trava a partir desta pol\u00eamica.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Na mat\u00e9ria do <em>Bom-Dia Brasil<\/em> que citei, o jurado do soletrando, digo, professor de portugu\u00eas S\u00e9rgio Nogueira se mostra irritado com essa tal lingu\u00edstica, que considera que n\u00e3o existe erro na l\u00edngua, mas apenas usos adequados ou inadequados:<\/p>\r\n<!-- wp:quote -->\r\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\r\n<p>O que me irrita mais nessa hist\u00f3ria \u00e9 que se fala tanto em preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, mas acho que a discrimina\u00e7\u00e3o maior \u00e9 acreditar que a crian\u00e7a \u00e9 incapaz de aprender plural e concordar verbo com sujeito. O \u2018Soletrando\u2019 [quadro do \u2018Caldeir\u00e3o do Huck\u2019] est\u00e1 provando isso. Crian\u00e7as s\u00e3o capazes de aprender quest\u00f5es ortogr\u00e1ficas mais complexas.\u00a0[3. Programa <em>Bom-Dia Brasil<\/em>, Rede Globo, 17 de maio de 2011.]<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<!-- \/wp:quote -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->S\u00e9rgio Nogueira confunde alhos com bugalhos: primeiro, o livro em quest\u00e3o nem \u00e9 para crian\u00e7as, como j\u00e1 se afirmou no come\u00e7o deste artigo. Tenho alguma d\u00favida se leu o cap\u00edtulo completo antes de prestar sua <em>consultoria<\/em> para o programa. Segundo, a quest\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com ortografia, j\u00e1 que se est\u00e1 falando sobre o registro oral em variedades n\u00e3o-padr\u00e3o.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Mas ignorando o &#8220;assessor lingu\u00edstico&#8221; da Globo, passemos aos fatos: o que se chama de &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;\u00a0 \u00e9 apenas <em>uma<\/em> das variedades da l\u00edngua, que possui prest\u00edgio entre os seus falantes por ser, historicamente, a variedade de uma determinada elite social, econ\u00f4mica e cultural.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O jornalista Adalberto Piotto, demonstra em um trecho da entrevista da R\u00e1dio CBN \u00e0 Dra. Vera Masag\u00e3o Ribeiro, do instituto respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o do livro,\u00a0 que n\u00e3o entende o conceito de &#8220;variedade prestigiada&#8221;: quando a professora faz uma m\u00e9dia ao dizer que os radialistas da CBN usam essa variedade, ele faz a ressalva de que apenas usam o famigerado &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;.<\/p>\r\n<h3><!-- \/wp:paragraph -->\u00a0Compet\u00eancia lingu\u00edstica<\/h3>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Um falante competente em uma l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 simplesmente o que sabe usar o padr\u00e3o (aquele que desinformados como os apresentadores da Globo chamaram de &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;), mas que \u00e9 capaz de decidir <em>quando<\/em> ou n\u00e3o us\u00e1-lo. E o livro criticado afirma isso categoriamente, em um trecho n\u00e3o divulgado pelas mat\u00e9rias da Globo e CBN. Se n\u00e3o, leia-se: &#8220;Como a linguagem possibilita acesso a muitas situa\u00e7\u00f5es sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, a fim de empreg\u00e1-la quando for necess\u00e1rio&#8221;. [4. Op. cit., p. 12]<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Essa variedade prestigiada \u00e9 comum nas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L%C3%ADngua_natural\">l\u00ednguas naturais<\/a> e pode ser encontrada inclusive em sociedades menos desenvolvidas tecnologicamente, como um distintivo, por exemplo, entre os chefes de uma tribo, paj\u00e9s e outros membros da sociedade. Ou seja, em nenhum momento se pode ignorar o papel que tem essa variedade enquanto instrumento de poder dentro da sociedade.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O dom\u00ednio do padr\u00e3o traz sim prest\u00edgio e credibilidade ao usu\u00e1rio. Uma apresenta\u00e7\u00e3o em <em>powerpoint<\/em> primorosa de um economista sobre as perspectivas da economia dos BRIC&#8217;s para a pr\u00f3xima d\u00e9cada, se tivesse um &#8220;s&#8221; fora do lugar perderia a for\u00e7a de argumenta\u00e7\u00e3o. Um excelente marceneiro \u00e9 ridicularizado por n\u00e3o usar o padr\u00e3o, embora seja capaz extrair da madeira obras de arte, e isso ocorre com muito mais frequ\u00eancia, n\u00e3o porque ele fala &#8220;errado&#8221;, mas por conta da estigmatiza\u00e7\u00e3o de sua classe social. A\u00ed \u00e9 onde entra a escola para ajudar os dois a evitar, guardadas as propor\u00e7\u00f5es, o vexame.<\/p>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<h3>Gram\u00e1tica versus l\u00edngua?<\/h3>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Por que ser\u00e1 que este tema causou tanta pol\u00eamica, para al\u00e9m da utopia da unidade lingu\u00edstica? Talvez porque as pessoas ainda t\u00eam, no senso comum, uma ideia arraigada que confunde os conceitos de l\u00edngua e gram\u00e1tica, por um lado, e de gram\u00e1tica normativa com gram\u00e1tica descritiva, por outro.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Em primeiro lugar, a l\u00edngua, como me ensinou o grande professor <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luiz_Ant\u00f4nio_Marcuschi\">Luiz Antonio Marcuschi<\/a>, \u00e9 o produto do trabalho de uma sociedade, fruto de negocia\u00e7\u00f5es, conflitos, consensos e escolhas. N\u00e3o deve, como j\u00e1 falei, ser considerada como uma estrutura fechada da qual os falantes se valem para comunicar-se, mas um ser vivo, que \u00e9 moldado e se modifica a partir das pr\u00e1ticas sociais.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Gram\u00e1ticas normativas n\u00e3o s\u00e3o livros sagrados; s\u00e3o o registro de uma variedade de uma l\u00edngua, usada em um determinado momento hist\u00f3rico por um determinado grupo que goza de um certo prest\u00edgio e que preserva esse prest\u00edgio ao impor, de alguma forma, seu falar. As gram\u00e1ticas descritivas ainda conseguem dar um passo al\u00e9m, pois preocupam-se menos em prescrever a regra do que analisar as diversas manifesta\u00e7\u00f5es de uma l\u00edngua em uso.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Tradicionalmente, nas escolas, aprend\u00edamos a partir de livros textos que tinham uma perspectiva prescritiva, ou seja, normativa. Pouco a pouco os livros foram considerando as contribui\u00e7\u00f5es na s\u00f3cio-lingu\u00edstica para assimilar os jogos de poder implicados na constru\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas. \u00c9 algo que a literatura j\u00e1 pratica h\u00e1 muito tempo, quando \u00e9 necess\u00e1rio, por exemplo, mimetizar a fala de determinada classe social ou caraterizar uma personagem por determinada marca lingu\u00edstica. Curiosamente, as gram\u00e1ticas tradicionais, que vinham com aqueles exemplos tirados de textos liter\u00e1rios, apenas utilizavam mostras que lhes interessavam, que estavam de acordo com a &#8220;norma&#8221;. Que loucura deve ser eles quererem citar <em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Grande_Sert\u00e3o:_Veredas\">Grande sert\u00e3o: veredas<\/a><\/em>!<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<h3><!-- wp:paragraph -->Toda l\u00edngua \u00e9 rio<\/h3>\r\n<p>Para finalizar, eu sempre uso uma par\u00e1bola para explicar o of\u00edcio do gram\u00e1tico e a natureza da l\u00edngua.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Um homem vivia em um vilarejo e todos os dias se encaminhava a um rio caudaloso que havia perto. Ele levava um daqueles baldes de madeira antigos, que mais vazavam \u00e1gua do que a capturavam. Ainda assim todos os dias ia ao rio, ajoelhava-se em sua margem e enchia seu balde. Ele voltava para o vilarejo e abastecia a casa, cozinhava, lavava as m\u00e3os e tudo o mais que a \u00e1gua do rio permitisse fazer. Certa manh\u00e3 ele voltava com seu balde e encontrou uma crian\u00e7a, que perguntou de onde vinha aquela \u00e1gua. Do rio, ele respondeu. Mas essa \u00e1gua \u00e9 o rio?, a crian\u00e7a perguntou. O homem parou um pouco para pensar, mas finalmente, talvez por cansa\u00e7o, talvez para livrar-se do garoto, disse: Sim, este \u00e9 o rio. O rio, no entanto, seguia seu curso, ignorando aquela gota colhida pelo homem, ignorando a fal\u00e1cia que ele lan\u00e7ara para a crian\u00e7a. O homem, ao chegar a sua casa, teve um infarto e morreu. Demoraram dias para encontr\u00e1-lo e, quando o fizeram, viram-no morto ao lado de um balde cheio de lodo, com \u00e1gua estagnada. A crian\u00e7a viu o corpo e disse: ele morreu ao lado do rio.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O rio \u00e9 a l\u00edngua, que continua seu fluxo, monumental, exuberante e violento, a despeito dos gram\u00e1ticos, membros da ABL, jornalistas e jurados de programas de televis\u00e3o.<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p><em>Post-scriptum 2020<\/em>: Muitos anos depois de escrever este texto, encontrei um manifesto, assinado por v\u00e1rios linguistas, que faz uma defesa do livro, analisando o caso. Se quiser aprofundar a leitura, recomendo que leia-o <a href=\"http:\/\/www.bibliotecadigital.abong.org.br\/bitstream\/handle\/11465\/1631\/139.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">aqui<\/a>.<\/p>\r\n<p><!-- \/wp:paragraph -->\u00a0<\/p>\r\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text][\/vc_column_text][vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css_animation=&#8221;&#8221; row_type=&#8221;row&#8221; use_row_as_full_screen_section=&#8221;no&#8221; type=&#8221;normal&#8221; angled_section=&#8221;no&#8221; text_align=&#8221;left&#8221; background_image_as_pattern=&#8221;without_pattern&#8221; full_width=&#8221;yes&#8221; content_in_grid=&#8221;no&#8221; icon=&#8221;&#8221; icon_size=&#8221;&#8221; use_background_as_pattern=&#8221;&#8221; text_font_weight=&#8221;300&#8243; show_button=&#8221;yes&#8221; button_size=&#8221;large&#8221; button_target=&#8221;_self&#8221; background_image=&#8221;18243&#8243; button_text=&#8221;Entre em contato&#8221; button_link=&#8221;https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/contato\/&#8221; icon_color=&#8221;&#8221; custom_icon=&#8221;&#8221; text_size=&#8221;&#8221; text_letter_spacing=&#8221;&#8221; button_text_color=&#8221;&#8221; button_hover_text_color=&#8221;&#8221; button_background_color=&#8221;&#8221; button_hover_background_color=&#8221;&#8221; button_border_color=&#8221;&#8221; button_hover_border_color=&#8221;&#8221;][vc_column][action full_width=&#8221;yes&#8221; content_in_grid=&#8221;no&#8221; type=&#8221;normal&#8221; text_font_weight=&#8221;300&#8243; show_button=&#8221;yes&#8221; button_size=&#8221;large&#8221; button_target=&#8221;_self&#8221; background_image=&#8221;18243&#8243; button_text=&#8221;Entre em contato&#8221; button_link=&#8221;https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/contato\/&#8221;]Ajuda para editar seu livro?<br \/>Contrate um profissional[\/action][vc_empty_space height=&#8221;16px&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p><!-- \/wp:paragraph --><!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Ora, fica claro que a autora se posiciona como <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%ADrio_Possenti\">S\u00edrio Possenti<\/a>, para quem o papel da escola \u00e9 sim ensinar o padr\u00e3o, a variedade prestigiada. O falante competente \u00e9 um poliglota em sua pr\u00f3pria l\u00edngua. A \u00fanica ressalva que se faz \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que as duas formas s\u00e3o meios &#8216;eficientes de comunica\u00e7\u00e3o&#8217;, pois isso est\u00e1 condicionado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o enunciativa. Por exemplo, imaginem um rubro-negro sofredor como eu na final do estadual pedindo um churrasquinho (de galinha, n\u00e3o de boi!) a um vendedor na entrada do est\u00e1dio. Eu diria, como um bom recifense, algo como &#8220;A\u00ed m\u00f4 vei, v\u00ea um churrasquinho a\u00ed!&#8221;. Mas para o Renato Machado, que apresentou no Bom Dia Brasil uma das mat\u00e9rias que reverberaram a pol\u00eamica tratada aqui, talvez eu devesse dizer: &#8220;Por obs\u00e9quio, o senhor poderia dar-me um de seus quitutes para que possa deleitar-me nas arquibancadas assistindo a esse maravilhoso espet\u00e1culo do desporto nacional?&#8221; Tenha paci\u00eancia.<\/p>\r\n<h3>V\u00e1rias l\u00ednguas numa s\u00f3<\/h3>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Na mat\u00e9ria do <em>Bom-Dia Brasil<\/em> que citei, o jurado do soletrando, digo, professor de portugu\u00eas S\u00e9rgio Nogueira se mostra irritado com essa tal lingu\u00edstica, que considera que n\u00e3o existe erro na l\u00edngua, mas apenas usos adequados ou inadequados:<\/p>\r\n<!-- wp:quote -->\r\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\r\n<p>O que me irrita mais nessa hist\u00f3ria \u00e9 que se fala tanto em preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, mas acho que a discrimina\u00e7\u00e3o maior \u00e9 acreditar que a crian\u00e7a \u00e9 incapaz de aprender plural e concordar verbo com sujeito. O \u2018Soletrando\u2019 [quadro do \u2018Caldeir\u00e3o do Huck\u2019] est\u00e1 provando isso. Crian\u00e7as s\u00e3o capazes de aprender quest\u00f5es ortogr\u00e1ficas mais complexas.\u00a0[3. Programa <em>Bom-Dia Brasil<\/em>, Rede Globo, 17 de maio de 2011.]<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<!-- \/wp:quote -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->S\u00e9rgio Nogueira confunde alhos com bugalhos: primeiro, o livro em quest\u00e3o nem \u00e9 para crian\u00e7as, como j\u00e1 se afirmou no come\u00e7o deste artigo. Tenho alguma d\u00favida se leu o cap\u00edtulo completo antes de prestar sua <em>consultoria<\/em> para o programa. Segundo, a quest\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com ortografia, j\u00e1 que se est\u00e1 falando sobre o registro oral em variedades n\u00e3o-padr\u00e3o.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Mas ignorando o &#8220;assessor lingu\u00edstico&#8221; da Globo, passemos aos fatos: o que se chama de &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;\u00a0 \u00e9 apenas <em>uma<\/em> das variedades da l\u00edngua, que possui prest\u00edgio entre os seus falantes por ser, historicamente, a variedade de uma determinada elite social, econ\u00f4mica e cultural.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O jornalista Adalberto Piotto, demonstra em um trecho da entrevista da R\u00e1dio CBN \u00e0 Dra. Vera Masag\u00e3o Ribeiro, do instituto respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o do livro,\u00a0 que n\u00e3o entende o conceito de &#8220;variedade prestigiada&#8221;: quando a professora faz uma m\u00e9dia ao dizer que os radialistas da CBN usam essa variedade, ele faz a ressalva de que apenas usam o famigerado &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;.<\/p>\r\n<h3><!-- \/wp:paragraph -->\u00a0Compet\u00eancia lingu\u00edstica<\/h3>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Um falante competente em uma l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 simplesmente o que sabe usar o padr\u00e3o (aquele que desinformados como os apresentadores da Globo chamaram de &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;), mas que \u00e9 capaz de decidir <em>quando<\/em> ou n\u00e3o us\u00e1-lo. E o livro criticado afirma isso categoriamente, em um trecho n\u00e3o divulgado pelas mat\u00e9rias da Globo e CBN. Se n\u00e3o, leia-se: &#8220;Como a linguagem possibilita acesso a muitas situa\u00e7\u00f5es sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, a fim de empreg\u00e1-la quando for necess\u00e1rio&#8221;. [4. Op. cit., p. 12]<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Essa variedade prestigiada \u00e9 comum nas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L%C3%ADngua_natural\">l\u00ednguas naturais<\/a> e pode ser encontrada inclusive em sociedades menos desenvolvidas tecnologicamente, como um distintivo, por exemplo, entre os chefes de uma tribo, paj\u00e9s e outros membros da sociedade. Ou seja, em nenhum momento se pode ignorar o papel que tem essa variedade enquanto instrumento de poder dentro da sociedade.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O dom\u00ednio do padr\u00e3o traz sim prest\u00edgio e credibilidade ao usu\u00e1rio. Uma apresenta\u00e7\u00e3o em <em>powerpoint<\/em> primorosa de um economista sobre as perspectivas da economia dos BRIC&#8217;s para a pr\u00f3xima d\u00e9cada, se tivesse um &#8220;s&#8221; fora do lugar perderia a for\u00e7a de argumenta\u00e7\u00e3o. Um excelente marceneiro \u00e9 ridicularizado por n\u00e3o usar o padr\u00e3o, embora seja capaz extrair da madeira obras de arte, e isso ocorre com muito mais frequ\u00eancia, n\u00e3o porque ele fala &#8220;errado&#8221;, mas por conta da estigmatiza\u00e7\u00e3o de sua classe social. A\u00ed \u00e9 onde entra a escola para ajudar os dois a evitar, guardadas as propor\u00e7\u00f5es, o vexame.<\/p>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<h3>Gram\u00e1tica versus l\u00edngua?<\/h3>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Por que ser\u00e1 que este tema causou tanta pol\u00eamica, para al\u00e9m da utopia da unidade lingu\u00edstica? Talvez porque as pessoas ainda t\u00eam, no senso comum, uma ideia arraigada que confunde os conceitos de l\u00edngua e gram\u00e1tica, por um lado, e de gram\u00e1tica normativa com gram\u00e1tica descritiva, por outro.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Em primeiro lugar, a l\u00edngua, como me ensinou o grande professor <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luiz_Ant\u00f4nio_Marcuschi\">Luiz Antonio Marcuschi<\/a>, \u00e9 o produto do trabalho de uma sociedade, fruto de negocia\u00e7\u00f5es, conflitos, consensos e escolhas. N\u00e3o deve, como j\u00e1 falei, ser considerada como uma estrutura fechada da qual os falantes se valem para comunicar-se, mas um ser vivo, que \u00e9 moldado e se modifica a partir das pr\u00e1ticas sociais.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Gram\u00e1ticas normativas n\u00e3o s\u00e3o livros sagrados; s\u00e3o o registro de uma variedade de uma l\u00edngua, usada em um determinado momento hist\u00f3rico por um determinado grupo que goza de um certo prest\u00edgio e que preserva esse prest\u00edgio ao impor, de alguma forma, seu falar. As gram\u00e1ticas descritivas ainda conseguem dar um passo al\u00e9m, pois preocupam-se menos em prescrever a regra do que analisar as diversas manifesta\u00e7\u00f5es de uma l\u00edngua em uso.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Tradicionalmente, nas escolas, aprend\u00edamos a partir de livros textos que tinham uma perspectiva prescritiva, ou seja, normativa. Pouco a pouco os livros foram considerando as contribui\u00e7\u00f5es na s\u00f3cio-lingu\u00edstica para assimilar os jogos de poder implicados na constru\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas. \u00c9 algo que a literatura j\u00e1 pratica h\u00e1 muito tempo, quando \u00e9 necess\u00e1rio, por exemplo, mimetizar a fala de determinada classe social ou caraterizar uma personagem por determinada marca lingu\u00edstica. Curiosamente, as gram\u00e1ticas tradicionais, que vinham com aqueles exemplos tirados de textos liter\u00e1rios, apenas utilizavam mostras que lhes interessavam, que estavam de acordo com a &#8220;norma&#8221;. Que loucura deve ser eles quererem citar <em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Grande_Sert\u00e3o:_Veredas\">Grande sert\u00e3o: veredas<\/a><\/em>!<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<h3><!-- wp:paragraph -->Toda l\u00edngua \u00e9 rio<\/h3>\r\n<p>Para finalizar, eu sempre uso uma par\u00e1bola para explicar o of\u00edcio do gram\u00e1tico e a natureza da l\u00edngua.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Um homem vivia em um vilarejo e todos os dias se encaminhava a um rio caudaloso que havia perto. Ele levava um daqueles baldes de madeira antigos, que mais vazavam \u00e1gua do que a capturavam. Ainda assim todos os dias ia ao rio, ajoelhava-se em sua margem e enchia seu balde. Ele voltava para o vilarejo e abastecia a casa, cozinhava, lavava as m\u00e3os e tudo o mais que a \u00e1gua do rio permitisse fazer. Certa manh\u00e3 ele voltava com seu balde e encontrou uma crian\u00e7a, que perguntou de onde vinha aquela \u00e1gua. Do rio, ele respondeu. Mas essa \u00e1gua \u00e9 o rio?, a crian\u00e7a perguntou. O homem parou um pouco para pensar, mas finalmente, talvez por cansa\u00e7o, talvez para livrar-se do garoto, disse: Sim, este \u00e9 o rio. O rio, no entanto, seguia seu curso, ignorando aquela gota colhida pelo homem, ignorando a fal\u00e1cia que ele lan\u00e7ara para a crian\u00e7a. O homem, ao chegar a sua casa, teve um infarto e morreu. Demoraram dias para encontr\u00e1-lo e, quando o fizeram, viram-no morto ao lado de um balde cheio de lodo, com \u00e1gua estagnada. A crian\u00e7a viu o corpo e disse: ele morreu ao lado do rio.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O rio \u00e9 a l\u00edngua, que continua seu fluxo, monumental, exuberante e violento, a despeito dos gram\u00e1ticos, membros da ABL, jornalistas e jurados de programas de televis\u00e3o.<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p><em>Post-scriptum 2020<\/em>: Muitos anos depois de escrever este texto, encontrei um manifesto, assinado por v\u00e1rios linguistas, que faz uma defesa do livro, analisando o caso. Se quiser aprofundar a leitura, recomendo que leia-o <a href=\"http:\/\/www.bibliotecadigital.abong.org.br\/bitstream\/handle\/11465\/1631\/139.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">aqui<\/a>.<\/p>\r\n<p><!-- \/wp:paragraph -->\u00a0<\/p>\r\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text][\/vc_column_text][vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css_animation=&#8221;&#8221; row_type=&#8221;row&#8221; use_row_as_full_screen_section=&#8221;no&#8221; type=&#8221;normal&#8221; angled_section=&#8221;no&#8221; text_align=&#8221;left&#8221; background_image_as_pattern=&#8221;without_pattern&#8221; full_width=&#8221;yes&#8221; content_in_grid=&#8221;no&#8221; icon=&#8221;&#8221; icon_size=&#8221;&#8221; use_background_as_pattern=&#8221;&#8221; text_font_weight=&#8221;300&#8243; show_button=&#8221;yes&#8221; button_size=&#8221;large&#8221; button_target=&#8221;_self&#8221; background_image=&#8221;18243&#8243; button_text=&#8221;Entre em contato&#8221; button_link=&#8221;https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/contato\/&#8221; icon_color=&#8221;&#8221; custom_icon=&#8221;&#8221; text_size=&#8221;&#8221; text_letter_spacing=&#8221;&#8221; button_text_color=&#8221;&#8221; button_hover_text_color=&#8221;&#8221; button_background_color=&#8221;&#8221; button_hover_background_color=&#8221;&#8221; button_border_color=&#8221;&#8221; button_hover_border_color=&#8221;&#8221;][vc_column][action full_width=&#8221;yes&#8221; content_in_grid=&#8221;no&#8221; type=&#8221;normal&#8221; text_font_weight=&#8221;300&#8243; show_button=&#8221;yes&#8221; button_size=&#8221;large&#8221; button_target=&#8221;_self&#8221; background_image=&#8221;18243&#8243; button_text=&#8221;Entre em contato&#8221; button_link=&#8221;https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/contato\/&#8221;]Ajuda para editar seu livro?<br \/>Contrate um profissional[\/action][vc_empty_space height=&#8221;16px&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p><!-- \/wp:post-content --><!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->A autora do livro se preocupa em advertir que \u00e9 preciso que o falante entenda que sua variedade n\u00e3o \u00e9 errada, mas que para ter acesso a certas inst\u00e2ncias de poder (ou ter &#8220;ascens\u00e3o social&#8221;, como falam os imortais da ABL em sua nota) \u00e9 preciso dominar a norma culta. Leia-se, se n\u00e3o,\u00a0 o trecho a seguir, de uma lucidez incr\u00edvel, extra\u00eddo do mesmo cap\u00edtulo do livro criticado, mas n\u00e3o divulgado pela m\u00eddia:<\/p>\r\n<!-- wp:quote -->\r\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\r\n<p>As classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da l\u00edngua diferente da usada pelas classes sociais que t\u00eam mais escolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>Por uma quest\u00e3o de prest\u00edgio \u2014 vale lembrar que a l\u00edngua \u00e9 um instrumento de poder \u2014, essa segunda variante \u00e9 chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira \u00e9 denominada variedade popular ou norma popular.<\/p>\r\n<p>Contudo, \u00e9 importante saber o seguinte: as duas variantes s\u00e3o eficientes como meios de comunica\u00e7\u00e3o. A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso \u00e0 escolaridade e por seu uso ser um sinal de prest\u00edgio. Nesse sentido, \u00e9 comum que se atribua um preconceito social em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 variante popular, usada pela maioria dos brasileiros.<\/p>\r\n<p>Esse preconceito n\u00e3o \u00e9 de raz\u00e3o lingu\u00edstica, mas <strong>social<\/strong>. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada uma tem seu lugar na comunica\u00e7\u00e3o cotidiana. (grifo nosso) [2. <em>Por uma vida melhor. <\/em>S\u00e3o Paulo: Global,\u00a0p. 12]<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<!-- \/wp:quote -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Ora, fica claro que a autora se posiciona como <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%ADrio_Possenti\">S\u00edrio Possenti<\/a>, para quem o papel da escola \u00e9 sim ensinar o padr\u00e3o, a variedade prestigiada. O falante competente \u00e9 um poliglota em sua pr\u00f3pria l\u00edngua. A \u00fanica ressalva que se faz \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que as duas formas s\u00e3o meios &#8216;eficientes de comunica\u00e7\u00e3o&#8217;, pois isso est\u00e1 condicionado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o enunciativa. Por exemplo, imaginem um rubro-negro sofredor como eu na final do estadual pedindo um churrasquinho (de galinha, n\u00e3o de boi!) a um vendedor na entrada do est\u00e1dio. Eu diria, como um bom recifense, algo como &#8220;A\u00ed m\u00f4 vei, v\u00ea um churrasquinho a\u00ed!&#8221;. Mas para o Renato Machado, que apresentou no Bom Dia Brasil uma das mat\u00e9rias que reverberaram a pol\u00eamica tratada aqui, talvez eu devesse dizer: &#8220;Por obs\u00e9quio, o senhor poderia dar-me um de seus quitutes para que possa deleitar-me nas arquibancadas assistindo a esse maravilhoso espet\u00e1culo do desporto nacional?&#8221; Tenha paci\u00eancia.<\/p>\r\n<h3>V\u00e1rias l\u00ednguas numa s\u00f3<\/h3>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Na mat\u00e9ria do <em>Bom-Dia Brasil<\/em> que citei, o jurado do soletrando, digo, professor de portugu\u00eas S\u00e9rgio Nogueira se mostra irritado com essa tal lingu\u00edstica, que considera que n\u00e3o existe erro na l\u00edngua, mas apenas usos adequados ou inadequados:<\/p>\r\n<!-- wp:quote -->\r\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\r\n<p>O que me irrita mais nessa hist\u00f3ria \u00e9 que se fala tanto em preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, mas acho que a discrimina\u00e7\u00e3o maior \u00e9 acreditar que a crian\u00e7a \u00e9 incapaz de aprender plural e concordar verbo com sujeito. O \u2018Soletrando\u2019 [quadro do \u2018Caldeir\u00e3o do Huck\u2019] est\u00e1 provando isso. Crian\u00e7as s\u00e3o capazes de aprender quest\u00f5es ortogr\u00e1ficas mais complexas.\u00a0[3. Programa <em>Bom-Dia Brasil<\/em>, Rede Globo, 17 de maio de 2011.]<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<!-- \/wp:quote -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->S\u00e9rgio Nogueira confunde alhos com bugalhos: primeiro, o livro em quest\u00e3o nem \u00e9 para crian\u00e7as, como j\u00e1 se afirmou no come\u00e7o deste artigo. Tenho alguma d\u00favida se leu o cap\u00edtulo completo antes de prestar sua <em>consultoria<\/em> para o programa. Segundo, a quest\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com ortografia, j\u00e1 que se est\u00e1 falando sobre o registro oral em variedades n\u00e3o-padr\u00e3o.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Mas ignorando o &#8220;assessor lingu\u00edstico&#8221; da Globo, passemos aos fatos: o que se chama de &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;\u00a0 \u00e9 apenas <em>uma<\/em> das variedades da l\u00edngua, que possui prest\u00edgio entre os seus falantes por ser, historicamente, a variedade de uma determinada elite social, econ\u00f4mica e cultural.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O jornalista Adalberto Piotto, demonstra em um trecho da entrevista da R\u00e1dio CBN \u00e0 Dra. Vera Masag\u00e3o Ribeiro, do instituto respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o do livro,\u00a0 que n\u00e3o entende o conceito de &#8220;variedade prestigiada&#8221;: quando a professora faz uma m\u00e9dia ao dizer que os radialistas da CBN usam essa variedade, ele faz a ressalva de que apenas usam o famigerado &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;.<\/p>\r\n<h3><!-- \/wp:paragraph -->\u00a0Compet\u00eancia lingu\u00edstica<\/h3>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Um falante competente em uma l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 simplesmente o que sabe usar o padr\u00e3o (aquele que desinformados como os apresentadores da Globo chamaram de &#8220;portugu\u00eas correto&#8221;), mas que \u00e9 capaz de decidir <em>quando<\/em> ou n\u00e3o us\u00e1-lo. E o livro criticado afirma isso categoriamente, em um trecho n\u00e3o divulgado pelas mat\u00e9rias da Globo e CBN. Se n\u00e3o, leia-se: &#8220;Como a linguagem possibilita acesso a muitas situa\u00e7\u00f5es sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, a fim de empreg\u00e1-la quando for necess\u00e1rio&#8221;. [4. Op. cit., p. 12]<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Essa variedade prestigiada \u00e9 comum nas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L%C3%ADngua_natural\">l\u00ednguas naturais<\/a> e pode ser encontrada inclusive em sociedades menos desenvolvidas tecnologicamente, como um distintivo, por exemplo, entre os chefes de uma tribo, paj\u00e9s e outros membros da sociedade. Ou seja, em nenhum momento se pode ignorar o papel que tem essa variedade enquanto instrumento de poder dentro da sociedade.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O dom\u00ednio do padr\u00e3o traz sim prest\u00edgio e credibilidade ao usu\u00e1rio. Uma apresenta\u00e7\u00e3o em <em>powerpoint<\/em> primorosa de um economista sobre as perspectivas da economia dos BRIC&#8217;s para a pr\u00f3xima d\u00e9cada, se tivesse um &#8220;s&#8221; fora do lugar perderia a for\u00e7a de argumenta\u00e7\u00e3o. Um excelente marceneiro \u00e9 ridicularizado por n\u00e3o usar o padr\u00e3o, embora seja capaz extrair da madeira obras de arte, e isso ocorre com muito mais frequ\u00eancia, n\u00e3o porque ele fala &#8220;errado&#8221;, mas por conta da estigmatiza\u00e7\u00e3o de sua classe social. A\u00ed \u00e9 onde entra a escola para ajudar os dois a evitar, guardadas as propor\u00e7\u00f5es, o vexame.<\/p>\r\n<!-- wp:heading {\"level\":3} -->\r\n<h3>Gram\u00e1tica versus l\u00edngua?<\/h3>\r\n<!-- \/wp:heading -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Por que ser\u00e1 que este tema causou tanta pol\u00eamica, para al\u00e9m da utopia da unidade lingu\u00edstica? Talvez porque as pessoas ainda t\u00eam, no senso comum, uma ideia arraigada que confunde os conceitos de l\u00edngua e gram\u00e1tica, por um lado, e de gram\u00e1tica normativa com gram\u00e1tica descritiva, por outro.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Em primeiro lugar, a l\u00edngua, como me ensinou o grande professor <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luiz_Ant\u00f4nio_Marcuschi\">Luiz Antonio Marcuschi<\/a>, \u00e9 o produto do trabalho de uma sociedade, fruto de negocia\u00e7\u00f5es, conflitos, consensos e escolhas. N\u00e3o deve, como j\u00e1 falei, ser considerada como uma estrutura fechada da qual os falantes se valem para comunicar-se, mas um ser vivo, que \u00e9 moldado e se modifica a partir das pr\u00e1ticas sociais.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Gram\u00e1ticas normativas n\u00e3o s\u00e3o livros sagrados; s\u00e3o o registro de uma variedade de uma l\u00edngua, usada em um determinado momento hist\u00f3rico por um determinado grupo que goza de um certo prest\u00edgio e que preserva esse prest\u00edgio ao impor, de alguma forma, seu falar. As gram\u00e1ticas descritivas ainda conseguem dar um passo al\u00e9m, pois preocupam-se menos em prescrever a regra do que analisar as diversas manifesta\u00e7\u00f5es de uma l\u00edngua em uso.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Tradicionalmente, nas escolas, aprend\u00edamos a partir de livros textos que tinham uma perspectiva prescritiva, ou seja, normativa. Pouco a pouco os livros foram considerando as contribui\u00e7\u00f5es na s\u00f3cio-lingu\u00edstica para assimilar os jogos de poder implicados na constru\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas. \u00c9 algo que a literatura j\u00e1 pratica h\u00e1 muito tempo, quando \u00e9 necess\u00e1rio, por exemplo, mimetizar a fala de determinada classe social ou caraterizar uma personagem por determinada marca lingu\u00edstica. Curiosamente, as gram\u00e1ticas tradicionais, que vinham com aqueles exemplos tirados de textos liter\u00e1rios, apenas utilizavam mostras que lhes interessavam, que estavam de acordo com a &#8220;norma&#8221;. Que loucura deve ser eles quererem citar <em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Grande_Sert\u00e3o:_Veredas\">Grande sert\u00e3o: veredas<\/a><\/em>!<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<h3><!-- wp:paragraph -->Toda l\u00edngua \u00e9 rio<\/h3>\r\n<p>Para finalizar, eu sempre uso uma par\u00e1bola para explicar o of\u00edcio do gram\u00e1tico e a natureza da l\u00edngua.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->Um homem vivia em um vilarejo e todos os dias se encaminhava a um rio caudaloso que havia perto. Ele levava um daqueles baldes de madeira antigos, que mais vazavam \u00e1gua do que a capturavam. Ainda assim todos os dias ia ao rio, ajoelhava-se em sua margem e enchia seu balde. Ele voltava para o vilarejo e abastecia a casa, cozinhava, lavava as m\u00e3os e tudo o mais que a \u00e1gua do rio permitisse fazer. Certa manh\u00e3 ele voltava com seu balde e encontrou uma crian\u00e7a, que perguntou de onde vinha aquela \u00e1gua. Do rio, ele respondeu. Mas essa \u00e1gua \u00e9 o rio?, a crian\u00e7a perguntou. O homem parou um pouco para pensar, mas finalmente, talvez por cansa\u00e7o, talvez para livrar-se do garoto, disse: Sim, este \u00e9 o rio. O rio, no entanto, seguia seu curso, ignorando aquela gota colhida pelo homem, ignorando a fal\u00e1cia que ele lan\u00e7ara para a crian\u00e7a. O homem, ao chegar a sua casa, teve um infarto e morreu. Demoraram dias para encontr\u00e1-lo e, quando o fizeram, viram-no morto ao lado de um balde cheio de lodo, com \u00e1gua estagnada. A crian\u00e7a viu o corpo e disse: ele morreu ao lado do rio.<\/p>\r\n<!-- \/wp:paragraph -->\r\n<p><!-- wp:paragraph -->O rio \u00e9 a l\u00edngua, que continua seu fluxo, monumental, exuberante e violento, a despeito dos gram\u00e1ticos, membros da ABL, jornalistas e jurados de programas de televis\u00e3o.<\/p>\r\n<hr \/>\r\n<p><em>Post-scriptum 2020<\/em>: Muitos anos depois de escrever este texto, encontrei um manifesto, assinado por v\u00e1rios linguistas, que faz uma defesa do livro, analisando o caso. Se quiser aprofundar a leitura, recomendo que leia-o <a href=\"http:\/\/www.bibliotecadigital.abong.org.br\/bitstream\/handle\/11465\/1631\/139.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">aqui<\/a>.<\/p>\r\n<p><!-- \/wp:paragraph -->\u00a0<\/p>\r\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text][\/vc_column_text][vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css_animation=&#8221;&#8221; row_type=&#8221;row&#8221; use_row_as_full_screen_section=&#8221;no&#8221; type=&#8221;normal&#8221; angled_section=&#8221;no&#8221; text_align=&#8221;left&#8221; background_image_as_pattern=&#8221;without_pattern&#8221; full_width=&#8221;yes&#8221; content_in_grid=&#8221;no&#8221; icon=&#8221;&#8221; icon_size=&#8221;&#8221; use_background_as_pattern=&#8221;&#8221; text_font_weight=&#8221;300&#8243; show_button=&#8221;yes&#8221; button_size=&#8221;large&#8221; button_target=&#8221;_self&#8221; background_image=&#8221;18243&#8243; button_text=&#8221;Entre em contato&#8221; button_link=&#8221;https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/contato\/&#8221; icon_color=&#8221;&#8221; custom_icon=&#8221;&#8221; text_size=&#8221;&#8221; text_letter_spacing=&#8221;&#8221; button_text_color=&#8221;&#8221; button_hover_text_color=&#8221;&#8221; button_background_color=&#8221;&#8221; button_hover_background_color=&#8221;&#8221; button_border_color=&#8221;&#8221; button_hover_border_color=&#8221;&#8221;][vc_column][action full_width=&#8221;yes&#8221; content_in_grid=&#8221;no&#8221; type=&#8221;normal&#8221; text_font_weight=&#8221;300&#8243; show_button=&#8221;yes&#8221; button_size=&#8221;large&#8221; button_target=&#8221;_self&#8221; background_image=&#8221;18243&#8243; button_text=&#8221;Entre em contato&#8221; button_link=&#8221;https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/contato\/&#8221;]Ajuda para editar seu livro?<br \/>Contrate um profissional[\/action][vc_empty_space height=&#8221;16px&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p><!-- \/wp:post-content --><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo sobre a pol\u00eamica em torno de um livro did\u00e1tico e o preconceito lingu\u00edstico em torno do ensino de l\u00edngua portuguesa no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":150563209,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1316,1312],"tags":[1309,570,197,698],"class_list":["post-9052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","category-lingua","tag-blog","tag-lingua","tag-opiniao","tag-variacao-linguistica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - 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