{"id":9895,"date":"2012-01-29T08:42:08","date_gmt":"2012-01-29T11:42:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/?p=9895"},"modified":"2012-02-04T06:29:11","modified_gmt":"2012-02-04T09:29:11","slug":"doze-gramas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/2012\/01\/29\/doze-gramas\/","title":{"rendered":"Doze gramas"},"content":{"rendered":"<p>J. havia sido roubada. Conversava abobrinha no celular enquanto descia do \u00f4nibus. O ladr\u00e3o era um daqueles rapazes de cabelos amarelos que vemos no carnaval e nos domingos na praia do Pina. S\u00f3 de bermuda, tatuagens. Um bote e foi-se ele com o celular da displicente. Falavam de qu\u00ea? Das manifesta\u00e7\u00f5es que os estudantes de f\u00e9rias estavam fazendo no Recife por conta das passagens? Talvez.<\/p>\n<p>O ladr\u00e3o correu, sem saber que passava diante da corregedoria da pol\u00edcia. Mais tarde uma agente diria que eles s\u00e3o &#8216;a pol\u00edcia da pol\u00edcia, mas s\u00e3o pol\u00edcia&#8217;. Correram atr\u00e1s dele, mas foi uma senhora, talvez moradora de rua, corpulenta, que pegou o rapaz e o obrigou a devolver o celular de J.<\/p>\n<p>Recebemos a liga\u00e7\u00e3o de J. de que estava na delegacia j\u00e1 era noite. Fomos at\u00e9 a corregedoria, mas ela j\u00e1 havia sa\u00eddo para o plant\u00e3o. Ainda havia alguns manifestantes, aproveitando talvez o final da rabeira do que seria a manifesta\u00e7\u00e3o, ou tentando fazer a sua pr\u00f3pria na Conde da Boa Vista. N\u00e3o atrapalharam nosso tr\u00e1fego.<\/p>\n<p>No plant\u00e3o havia uma policial anotando a ocorr\u00eancia. Passava a limpo para um papel e depois copiava para a ficha padr\u00e3o. Achei interessante o cuidado com o que escrevia. O ladr\u00e3o deveria estar em alguma cela. Aos poucos fomos sabendo sobre ele. Tentavam saber se tinha passagem pela pol\u00edcia. Outra agente, essa mais experiente, dizia que ele devia estar mentindo o nome, j\u00e1 que n\u00e3o encontravam nada no sistema. Chamarei o ladr\u00e3o de C.<\/p>\n<p>J. estava numa sala, prestando depoimento. Quando pegaram o celular ela quis ir embora. Disseram que ela n\u00e3o poderia deixar que ele fizesse aquilo com outras pessoas. Ela decidiu ir \u00e0 delegacia. Demorar\u00edamos quase duas horas no processo todo. N\u00e3o sa\u00eda de minha cabe\u00e7a que essa demora era para que a v\u00edtima tivesse uma co-responsabilidade no destino do ladr\u00e3o, para que experimentasse cada instante que precedia seu abismo. C. devia ter levado alguns safan\u00f5es, pelo que entendi da conversa. Ainda procuravam sua ficha quando chegou o casal.<\/p>\n<p>Um boyzinho de uns vinte anos &#8211; C. tinha 22, mais tarde saberia &#8211; uma menina que parecia ser mais velha, com um jeito meio hippie. Fiquei na d\u00favida se eram v\u00edtimas ou acusados de algo. Posse de drogas, soube logo na sequ\u00eancia. O rapaz parecia tranquilo, a menina tinha um rosto inalter\u00e1vel e um olhar endurecido. Em algum momento come\u00e7aram a pesar. Doze gramas. Como a lei no Brasil n\u00e3o imp\u00f5e um peso que distingue o traficante do usu\u00e1rio, caberia o bom senso do juiz para saber se aquele boyzinho traficava. Artigo 33 ou 28 do C\u00f3digo Penal?<\/p>\n<p>Enquanto isso, sa\u00edam novidades sobre C. N\u00e3o tinha passagem. A agente experiente disse que provavelmente tinha roubado muito, mas s\u00f3 hoje tinha ca\u00eddo. Iria para o An\u00edbal Bruno. Vi a foto de C. na tela do computador. Um olhar vazio, de quem tem pouco o que esperar da vida. O nome da m\u00e3e, n\u00e3o lembro qual era. Estaria pensando nele, querendo saber onde estava o menino? N\u00e3o tinha o cabelo pintado na foto. O pai: n\u00e3o informado. Mais um dos milhares de meninos sem pai, criados com a for\u00e7a de uma m\u00e3e ou com a permissividade? Quem era eu para julgar C.?<\/p>\n<p>O boyzinho conversava com os agentes que o trouxeram. Comentavam que a maconha estava misturada. Alertaram que se ele fosse fichado, depois para fazer concursos ficaria ruim. N\u00e3o sei se tentavam extorqui-lo. Ele disse que dali a dois anos os dois iriam morar na Amaz\u00f4nia, que nada mais importaria. A menina tinha o mesmo olhar paralisado, como se assistisse a tudo aquilo com desprezo ou f\u00faria, n\u00e3o tinha muito como saber. Ser\u00e1 que ela achava o boyzinho t\u00e3o idiota como eu achava ou seria o amor da vida dela? Viviriam felizes no meio da Amaz\u00f4nia, fumando toda maconha que plantassem, dariam cria a sete pirralhos e seriam caretas com eles, para que n\u00e3o fumassem.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m ligou para o rapaz. Ele explicou que estavam na delegacia, que saiu da manifesta\u00e7\u00e3o e que pegaram ele. &#8220;Doze gramas&#8221;, ele falou para quem estava do outro lado e que n\u00e3o parecia ser os pais. Os agentes sorriam de algo. Um deles mantinha-se s\u00e9rio, mas para mim estava claro que seriam liberados em algum momento. O rapaz provavelmente n\u00e3o daria nenhuma &#8216;ajuda&#8217; aos guardas. Ser\u00e1 que seus pais viriam e faria a festa da mo\u00e7ada? N\u00e3o sei. Mas acho que tudo acabaria com um &#8216;Vai-te embora, boy, vive tua vida&#8221;.<!--nextpage--><\/p>\n<p>Pensei em C. Sua m\u00e3e viria peg\u00e1-lo? N\u00e3o adiantaria. J. terminava finalmente o depoimento. Uma folha de papel impressa com aquelas matriciais antigas, que zumbiam tra\u00e7ando o destino de C. como a m\u00e1quina cheia de agulhas da Col\u00f4nia Penal de Kafka. S\u00f3 que, ao contr\u00e1rio, era apenas o come\u00e7o da dor. C. iria para o pres\u00eddio, provaria finalmente do terror dos homens. Seu cabelo pintado seria motivo de chacota? Violariam seu corpo na primeira noite, como dizem que acontece? Se ele tivesse corrido, se n\u00e3o tivesse sido capturado pelo roubo do celular de J.? Em algumas semanas ela ganharia outro celular das tias. Incluiria o roubo em outra de muitas de suas perip\u00e9cias e presepadas. C. talvez roubasse outros celulares, carteiras, joias no Carnaval. Talvez fosse pego, talvez n\u00e3o. Pensei no peso do celular de J. Quantos gramas tinha? O boyzinho seria liberado, tenho quase certeza. Doze gramas. Quantos gramas pesava o celular de J., quantos gramas selaram o destino de C.? Sa\u00ed de l\u00e1 com essas perguntas na cabe\u00e7a e um pouco de sono.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J. havia sido roubada. Conversava abobrinha no celular enquanto descia do \u00f4nibus. O ladr\u00e3o era um daqueles rapazes de cabelos amarelos que vemos no carnaval e nos domingos na praia do Pina. S\u00f3 de bermuda, tatuagens. Um bote e foi-se ele com o celular da displicente. Falavam de qu\u00ea? 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