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Resenha de [desvirtual provisório]

Wel­ling­ton de Melo é uma das mai­o­res vozes da nova gera­ção da lite­ra­tura reci­fense. Dei­xe­mos de lado o seu tra­ba­lho como fomen­ta­dor cul­tu­ral junto ao grupo Urros Mas­cu­li­nos, que nos foge no momento, e foque­mos uni­ca­mente a escrita con­tem­po­râ­nea de seu segundo livro de poe­sias, [des­vir­tual pro­vi­só­rio] (84 págs., Canal6 Edi­tora), que tem nos emba­tes, hia­tos e inter­sec­ções entre o humano e a máquina seu tema prin­ci­pal desen­vol­vido já com maes­tria. Ana Bea­triz Durant, que assina as ore­lhas da obra, fala sobre sua divi­são temá­tica: “O livro é divi­dido em cinco par­tes, sem é claro, cor­rer o risco da seg­men­ta­ção e dis­tor­ção entre elas, a saber: A proto-máquina, A Máquina, A anti-Máquina, A hiper-Máquina, O pó. Na pri­meira parte, o nas­cer dos ver­sos, diante dessa rea­li­dade vã, é can­tado como pura neces­si­dade, como san­gue que brota da desor­dem. Na segunda, o poeta expõe a engre­na­gem diante da exis­tên­cia humana. Na anti-Máquina, há uma inqui­e­ta­ção diante de tanta inex­pres­si­vi­dade do homem. Na penúl­tima parte, é pos­sí­vel vis­lum­brar um indi­ví­duo lutando para não ser máquina, que ora o é, ora lampeja-se ape­nas homem, frá­gil. Em O pó, o der­ra­deiro des­tino, o retrato de um ser que é ape­nas super­fí­cie, sem espes­sura, coberto por uma camada cinza que mata, pene­trando aos pou­cos, ape­nas na ina­la­ção da mai­o­ria desa­vi­sada”. Ape­sar de o tema não ser novo, Melo con­se­gue – ainda “can­tando”, na melhor tra­di­ção poé­tica oci­den­tal, como atesta o pre­fá­cio – atin­gir momen­tos líri­cos de grande den­si­dade, nova­mente nas pala­vras de Durant, “não geo­grá­fi­cos, mas his­tó­ri­cos, de homem con­tem­po­râ­neo, esgo­tado, esté­ril, que absorve maqui­nal­mente o seu tempo sem as amar­ras que lhe são impos­tas pela Máquina”. Tal esgo­ta­mento se tra­duz, às vezes, numa revi­sita ao treno e à lamen­ta­ção de ori­gem pro­fé­tica, bíblica – poder-se-ia mesmo dizer, muta­tis mutan­dis, uma espé­cie de Livro de Jó da era inter­náu­tica, entre­vista como algo pró­xima de um seme­lhante Deus velado e fugi­tivo, ou então, para­do­xal­mente, oni­pre­sente e cas­tra­dor como o Grande Irmão orwel­li­ano, uma cifra malthu­si­ana irmã do topos niilista-poético do vazio (repa­rem na uti­li­za­ção dos sím­bo­los grá­fi­cos da lin­gua­gem biná­ria com­pu­ta­ci­o­nal no inte­rior dos poe­mas): “Eu acordo & j@ não me reco­nheço na face emba­çada do / espe­lho. Eu, parafern@lia de núme­ros que se repe­tem, que dão / conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora. / Eu, repe­ti­das vezes nin­guém, sufo­cado entre telas que nada me / dizem sobre mim. Eu, uma exten­são de um nada que se afasta cada / vez mais da terra da qual roubo meu nome: // homem. // Eu, homem, só me reco­nheço no Caos que me pre­sen­teia o / Verbo. Eu, trans­lú­cida som­bra de mim, atra­vesso os dias como uma / lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na pala­vra que alguém me / empresta. Eu, avesso de uma pos­si­bi­li­dade, eu, mas­ti­gado pelo / coti­di­ano heré­tico dos Anjos, final­mente des­cu­bro que pesa sobre / mim a herança de meu tempo, a única ver­dade que o Homem de / meu tempo entende: // a M@quina […]”. Wel­ling­ton de Melo é poeta pro­mis­sor e já capaz de rea­li­zar gran­des arte­fa­tos líri­cos, a exem­plo de “Antes havia o poema”, uma relei­tua cyber do velho (e sem­pre atual) topos da Idade de ouro per­dida: “antes do som / das bes­tas de silí­cio / antes da chama / que se verte pela beleza do s@bado / antes da asa / acesa do tempo / que der­rete / o desejo // h@ uma cen­te­lha // de vida que se eleva / sobre minha face // h@ um suplí­cio de folhas mor­tas // & a seiva pri­mor­dial / de que se com­põe o sonho // h@ um fio de san­gue // que escorre pela fria nava­lha / da noite das eras // antes de todo o caos / depois de toda a paz / em mim // havia o poema”. O gosto de cilí­cio, para­fra­se­ando o pos­fá­cio assi­nado por outro poeta reci­fense, Artur Rogé­rio, “ainda tá na boca e é, ines­pe­ra­da­mente, dos mais saborosos”.

Por André de Sena