Confissões em torno do tema gerador

Lembro de, na Jornada Literária Portal do Sertão do ano passado, promovida pelo SESC, de ouvir Micheliny Verunschk falar sobre o tema em torno do qual se movia toda sua obra: a morte.

Menos por ser a morte e mais por haver esse tema gerador de sua arte, chamou-me a atenção a fala de Micheliny. E não havia sido a primeira vez que ouvia algo do tipo. Minha querida Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, falando certa vez de um pintor amigo, cujo nome o tempo enterrou em minha memória, dizia que seu tema central, como o dela, aliás, era a incomunicabilidade. Tanto as palavras de Maria do Carmo como nas de Micheliny me fizeram revisitar o seu trabalho, com esse olhar sobre o tema gerador. Havia, claro, um condicionamento meu agora, depois de ouvir o que elas disseram. Isso prejudicaria a mim enquanto leitor delas? Mais do que isso: enquanto escritor, deveria revelar esses meus temas geradores?

Fiquei com isso durante algum tempo. Me fez refletir sobre o meu tema gerador, se é que existe. Há, efetivamente, alguns temas que movem tudo o que escrevo, não posso negar. O não pertencimento, o que chamei de “síndrome Mersault” em outro artigo, é talvez o meu tema gerador principal. Quando leio o que escrevi, lá está essa sombra  me olhando. Não tenho isso definido, nem tenho o direito de impor esse olhar ao meu leitor, mas é uma impressão que tenho.

No final das contas, muda-se a maneira de fazê-lo, mas os temas serão sempre os mesmos. Acho que é só ali, na maneira de reinventar esses temas que mora a literatura, a arte de uma forma ampla. O incomunicável em Maria do Carmo e a morte em Micheliny reinventam meu olhar. Acho que é por aí, talvez, que se deva ir, mais do que dar voltas em torno do próprio umbigo.

Foto: Catarina Carneiro de Sousa

 

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