Poesia e buracos negros

Cheguei ao bloco G da Unicap alguns minutos atrasado para a aula magna do curso de pós-graduação em Literatura e Multiculturalidade. Errei a sala, que ficava no quinto andar, mas finalmente cheguei ao lugar, quase como se entrasse em outra dimensão por um buraco de minhoca: estava lotada e no momento em que entrei ex-alunas contavam a experiência de ter estudado literatura com o professor Janilto Andrade, que tinha me convidado para participar dessa aula: escolheria um poema meu para ser lido e analisado pelos alunos nesse dia. A querida Renata Pimentel tinha indicado meu nome ao professor, que acatou prontamente e formalizou a coisa toda. Além da participação, minha obra poética vai servir de objeto de análise dos alunos, que devem escrever um texto crítico ao final da cadeira. Uma honra, claro!

Ouvi atentamente os depoimentos das ex-alunas, enquanto procurava os textos que deveria ler. Havia enviado cinco poemas, como solicitado, mas não sabia qual o professor leria e se teria uma cópia do texto. Minha memória é um lixo e não tenho decorado quase nenhum poema, exceto o wellington de melo. Finalmente consegui visualizar os poemas, quando Renata Pimentel estava dando também o depoimento como professora do curso. Após esses depoimentos, o professor anunciou que um dos poetas cuja obra seria analisada por eles no curso, numa disciplina chamada Leitura Dirigida, estava ali.

O poema escolhido foi um fragmento de “O cotidiano oculto das feras”, que publiquei na seleta 5 poemas/5 poémes, que lancei em Clermont-Ferrand e no Salão do Livro de Paris no ano passado. Trata-se de um poema longo que provavelmente demorarei a publicar, pois toca que temas bem espinhosos relacionados à vida literária e cada canto do poema está escrito para um poeta diferente, além de eu não fazer qualquer concessão. O último trecho diz assim:

LXIII

“Pero callad.
Quiero deciros algo.
Sólo quiero deciros que estamos todos juntos.”

Jaime Gil de Biedma

mas o que fizeram de nós
[perguntarão as feras
quando o ocaso, o esquecimento, o pânico
banharem  a casa, a escrivaninha, o cano da arma

eu digo que nos enterraram
em repartições, mesas de bares, balcões, palcos

todas as gerações
:máscaras penduradas em antiquário
a criança adormecida
antes do acidente ferroviário

e essas cruzes plantadas em minha boca descem pela garganta
e corpos que apenas caminham
loteiam as mesmas mesas, salões, pátios
e poetas que gritam para o abismo
encharcados de espelhos e pedestais apodrecidos]

mas o que fizeram de nós
pós-modernos
[dirão um dia quando tudo for história ou tédio

eu digo que há vozes recheando a argamassa
das ruínas do povoado
vozes soterradas por baldes de sorrisos e orelhas ocas

há paredes inteiras feitas de papéis de livros nascidos mortos
e há livros que nunca serão lidos e poemas feitos de
letras
ego e nada

todos os poemas mais lindos morreram antes de sair das bocas
meu tempo é quando poemas enfeitam
as engrenagens do dia

entenda:
todo poema agora apenas lança
mais uma pá de cal
sobre a poesia]

Depois de Renata me forçar a ler o trecho, sucederam-se perguntas do professor, considerações de alunos e Renata. Foi uma experiência muito legal, porque eu disse que uma das artes mais solitárias é a literatura: ao contrário da música, não vemos o impacto de nossa arte durante a execução. Lançamos garrafas ao mar e não sabemos como será a recepção, embora as redes sociais tenham ajudado bastante a aproximar leitores e autores.

O professor perguntou especificamente sobre a última estrofe: considerou o que achava de uma leitura que pudesse insinuar que eu falava que a poesia estava morta e por que então seguir escrevendo. Eu achava que essa estrofe, que encerra o livro, distingue algo importante: poesia de poema. Expliquei que a poesia está todas as partes e muitas vezes não habita os poemas. Aliás, não depende deles para existir. Poesia eu vi num fim de tarde ao acordar e ver meu filho mais novo sorrindo para mim do berço e minha mulher na cama, adormecida com uma concha do mar no ouvido enquanto entrava pela janela uma luz caramelada de um sol que morria. Disse que nunca escrevi um poema sobre essa cena e talvez nunca escreva, porque em minha memória essa poesia está em estado bruto. Esclareci que havia sim uma autoironia no poema, claro, mas que a reflexão ia no sentido de nos questionarmos a necessidade de publicar tanto, algo que parece obsessão de nosso tempo, se não há verdadeira poesia, apenas “letras/ego e nada”.

Eu falei que, para mim, a arte é um exercício de abismo, que a poesia deve nos ajudar a entortar o olhar, que os grandes livros que li sempre me deixavam um vazio, roubavam algo de mim. Nesse momento eu entendi a Decalogia Ladrona, de Artur Rogério: todo poeta rouba algo de você, tira com seus poemas um pedaço do leitor e joga para o oco do mundo, um lugar onde ficam armazenados desejos e sonhos, talvez para nunca mais voltar, talvez para se tornarem massa que alimenta esse monstro cruel chamado poesia.

Foto: Karen_O’D

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1 Comentário
  • Artur Lins
    Postado às 10:56h, 07 março

    Li apenas agora. Tenho uma visão parecida com a sua em relação a poema/poesia. Fiquei emocionado com o exemplo de poesia.
    Muito bom. Bom saber que sua obra está sendo analisada enquanto você ainda se encontra em produção. Há uma possibilidade de multiplicidade, de metamorfose etc.
    Abraços.