Nossa luta pela vida

Esta semana foi publicada uma excelente matéria do jornalista Diogo Guedes sobre a polêmica em torno das novas edições brasileiras do livro Minha luta, escrito pelo ditador Adolf Hitler durante o período em que esteve preso por conta de sua primeira tentativa de golpe de estado.

Ao menos duas editoras estão determinadas a lançar novas edições do livro:  a Centauro pretende publicar nova edição, já que o livro faz parte de seu catálogo há alguns anos e se encontra facilmente nos sebos. A Geração Editoral deve lançar nova tradução do alemão, feita por Wiliam Lagos, com notas críticas e textos de apoio. O que vem se debatendo principalmente nas redes sociais é se a edição deve ou não ser proibida no Brasil. Se a última frase pode chocar alguns por parecer um perigoso precedente para censura, outros defenderão que a edição de um livro impregnado de um discurso que teve consequências tão maléficas para a humanidade deveria ser algo impensável.

Ao ser questionado sobre isso pelo jornalista autor da matéria, minha resposta foi que, como editor e como cidadão me envergonho. Primeiro, porque expõe a realidade de boa parte do mercado editorial tradicional, essa busca inescrupulosa pelo lucro. Segundo, porque o  que me preocupa não é o fato de ser liberada ou não a edição do livro, se ela teria notas ou ressalvas – algo como um salvo conduto para os editores publicarem dizendo “não pensamos assim” – mas viver num país que editores cogitem essa ideia, o que significa dizer que há leitores para esse tipo de livro, que há mercado consumidor.  O argumento de que é um livro que precisa ser estudado não justifica uma edição comercial – há anos quem quiser estudá-lo encontra cópias na internet. Infelizmente não serão estudiosos os que lerão, mas simpatizantes daquele ideário absurdo, o que é lamentável.

O que quero dizer é que não ignoro as leis do mercado – sempre elas – , mas que essas não podem ditar todos os aspectos da sociedade, mesmo os econômicos. Isso talvez seja óbvio para quem enxerga esse tipo de coisa pela ótica da economia solidária, por exemplo, mas a suposta defesa da democracia que é vendida no pacote de argumentos dos defensores da edição enseja, na verdade, um falso debate – pelo menos para os menos ingênuos. Trata-se, sim, de se fazer dinheiro. E muito. Enquanto esquerdistas e liberais, judeus e neofascistas se digladiam entre rejeição ao discurso de ódio versus liberdade de expressão, os editores apenas enxergam cifras. Simples assim.

Lembro das polêmicas campanhas da United Colors of Benetton nos anos 90 e de como se começou a discutir os limites da publicidade. Até onde devo ir para vender meu produto? Agora, a pergunta seria “sobre o que vale a pena ganhar o dinheiro?”. Se valem exclusivamente as regras do mercado, então vale tudo. Da morte de uma criança numa praia ao extermínio de milhões de pessoas em chuveiros. O verdadeiro debate, o que se esconde por trás dessa névoa ideológica de ambos os lados dos leitores, é travado no campo da ética editorial. Eu devo ganhar dinheiro divulgando um discurso que personifica a essência do mal contra a humanidade?

Outro falso debate que pode ser estabelecido é o que compara o caso da edição do Minha luta à disputa recente em torno das biografias não autorizadas no Brasil. Se aqui se questionava o conflito entre a liberdade de expressão versus o direito à privacidade – mais uma falsa dicotomia, pois o que vale é o interesse das editoras e biógrafos em lucrar contra o desejo dos biografados em não deixar que tirem uma lasquinha sem que eles mordam algo – não estaríamos falando de discursos contra os direitos humanos – por mais valor histórico que pudessem ter. Ao mesmo tempo, o centro da questão envolvia quanto de autoria tem um biografado sobre uma obra em que ele é o objeto de estudo – a meu ver, nenhuma. Não há contradição, pois, em se defender o direito à publicação de biografias não autorizadas e ser contra uma edição comercial de Minha luta.

Creio que a nossa luta, como bem falou o escritor Sidney Rocha em resposta à mesma entrevista, “deve ser sempre pelos direitos humanos e pela vida”. Tudo fora disso é nuvem de fumaça, desnorteio, pó.

 

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