Literatura não serve para nada

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A Universidade de Pernambuco (UPE) divulgou as mudanças na seleção do seu vestibular para 2014. A prova do ENEM passa a valer 50% da nota, sem a Redação. A segunda fase terá provas específicas, dependendo do curso escolhido pelos candidatos. Chamou a atenção o fato de a prova de Literatura ser agora exclusividade dos que pretendam cursar Letras.

Os comentários nas salas dos professores e nas redes foram poucos, mas levantavam questões importantes: a restrição da prova de Literatura colocaria em risco o próprio ensino da disciplina nas escolas. Se os alunos não fazem provas de Literatura, não se interessarão pela matéria. A Literatura só terá a perder com a alteração etc. Será? A mudança na UPE traz um subtexto, com pelo menos duas outras questões. Primeiro, Literatura seria uma disciplina que interessa pouco para a formação de profissionais de Saúde ou Exatas e, mesmo entre as Humanidades, apenas os futuros professores de Letras deveriam dominá-la.

LITERATURA E ALTERIDADE

O sinal de alerta parece claro: nós, que amamos a Literatura, que consideramos que sem ela teremos cidadãos com uma visão cada vez mais limitada e estéril, sabemos de sua importância. Através dela aprendemos sobre nossas subjetividades, nos apropriamos da beleza, nos descobrimos no discurso desse outro literário – e não é o exercício da alteridade uma ferramenta essencial da democracia? Mas desconsiderar o poder da Literatura da construção de seres humanos mais plenos é exercitar o culto a um obscurantismo tecnocrata, muito na moda por essas paragens. Se não, o engenheiro Joaquim Cardozo, coitado, estaria perdendo tempo. E aquele farmacêutico chamado Drummond deveria resignar-se a suas receitas. Segundo essa perspectiva, salvar-se-ia só o professor Manuel Bandeira, para continuar nos modernos.

Mas uma segunda questão que a retirada das provas de Literatura para a maioria das provas de ingresso à UPE traz seria: o que se ensina nas aulas de Literatura?

Mas uma segunda questão que a retirada das provas de Literatura para a maioria das provas de ingresso à UPE traz seria: o que se ensina nas aulas de Literatura? Explicações sobre o contexto histórico das produções, descrições das características estéticas das chamadas escolas literárias, listas de principais autores e obras publicadas, incluindo ano de publicação da suposta ‘obra inaugural’ de cada escola são conteúdos comuns. A sensação é que a Literatura morreu nos anos cinquenta, quando são lançadas as últimas obras trabalhadas nos programas do ensino médio. Pouco se leem os contemporâneos, embora a Academia cada vez mais se debruce sobre sua produção. Pior: pouco se estimula a leitura literária de fruição. O aluno sairá do ensino médio com a ideia de que Literatura e mofo são palavras que pertencem ao mesmo campo semântico. E por que é assim?

Primeiro, porque a despeito do que falamos sobre o crescente interesse da Academia por questões da contemporaneidade, muitos programas dos cursos de Letras, com raras e magníficas exceções, rezam pela cartilha da historiografia ou de um estruturalismo estéril, de modo que os professores reproduzem, embora de forma deturpada e reducionista, um modelo que não lhes é estranho – afinal, também tiveram em sua maioria aulas de historiografia literária no ensino médio. Ao mesmo tempo, poucos cursos de Letras têm uma disciplina chamada “Didática do Ensino de Literatura”, algo essencial para romper esse paradigma historiográfico. Nas aulas de Didática do Ensino de Língua Portuguesa, o texto literário não é considerado plenamente em suas potencialidades e especificidades, não se sinaliza um trabalho sistemático que substitua a historiografia nem se consideram alternativas ao trabalho com gêneros textuais. O texto literário é normalmente – claro que não exclusivamente – trabalhado na dimensão do gênero a que pertence. Trabalharemos com contos, crônicas, poemas, que são textos mais curtos e adaptáveis para a análise imediata do objeto. O trabalho sistemático com romances ou com a literatura enquanto um sistema que se retroalimenta – questão talvez não consensual, mas válida – é raro nas aulas de língua portuguesa.

VESTIBULAR

Por outro lado, os programas dos vestibulares são usados como justificativa para a necessidade de se trabalhar dessa forma. Ou pelo menos eram, até que a Literatura – ou a historiografia da Literatura –  passou a desaparecer dos exames, a começar pelo ENEM. Com essa realidade, coloca-se em questão a própria existência do professor de Literatura, que tem um objeto diferente do professor de Língua Portuguesa, como se a Literatura não fosse algo essencial para o letramento, para a construção de um pertencimento do falante com respeito a sua língua e cultura. Reforça-se, com esse modelo, a dinâmica de que falamos no parágrafo anterior.

As aulas de Literatura precisam, talvez, reencontrar sua verdadeira vocação: ensinar esse amor pela leitura que nos é inerente, sem esquecer de estimular a apreciação estética – será isso ou teremos apenas leitores de Cinquenta Tons de Cinza e afins. Ajudar a aprofundar nossa existência sobre a Terra – e não é esse um dos objetivos da arte?
Os professores de Literatura são, essencialmente, apaixonados pelos livros. Se não formos capazes de transmitir essa paixão, amigos, talvez estejamos dando razão a esses senhores que, equivocadamente, consideram que Literatura só interessa a alunos de Letras.

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4 Comentários
  • Helder Herik
    Postado às 19:48h, 14 abril

    Gostei muito do texto Wellington. Uma coisa que muito me preocupa é justamente o fato dos alunos (boa parte deles) estarem focados (ao ponto de mecanizados) a passarem no vestibular. Beleza. Agora que não é mais obrigatório o menino pode me olhar e dizer "sua disciplina não cai no vestibular" (nem todos querem ser professores de letras, não é mesmo?) O perigo, o lamentável é que justificar a importância da literatura para ele pouco o comoverá, o instigará a estudar-gostar (e gostar só no ensino médio é pau. Tem que vir de antes, e de casa). É preciso, como citou o Homero, associar cada vez mais Literatura & Vida. Como você prega também, que Literatura é diferente de Historiografia. Abração cabra.

    • Wellington
      Postado às 09:11h, 20 abril

      Com certeza, se literatura não for algo vivo, fará cada vez menos sentido para esses meninos. Aliás, como a escola, se não encontrar novos rumos, será cada vez mais sem sentido.

  • Wellington de Melo
    Postado às 11:26h, 13 abril

    Mas é exatamente isso de que falo, Homero. Apreciar literatura é apreciar tudo que vem junto, o que não é o mesmo de ensinar história da literatura. Acho que é o aquilo a que me refiro quando digo que a literatura serve para “aprofundar nossa existência sobre a Terra”. É por aí, amigo!

  • Homero Fonseca
    Postado às 10:13h, 13 abril

    Well, boas observações. É realmente lamentável essa exclusão da Literatura, como você indica. Agora, proponho uma reflexão: esse "fechamento" (ou que nome se lhe dê) da Literatura sobre si própria não seria um fator suicida? Visto por outro ângulo: se cada vez mais a Literatura perde protagonismo, uma postura autista não agravará o problema? Para mim, modestamente, Literatura & Vida é o binômio essencial.