Desafio das livrarias 2.0

CRISE

Começou em novembro: um editor lançou o desafio das livrarias, no qual quem participasse comprava um livro numa livraria e marcava coleguinhas nas redes para fazer o mesmo. Viralizou: editores e editoras, escritores e escritoras e, olhe só, até os leitores comuns, entraram na onda.

Gesto nobre defender as livrarias quando as duas maiores redes do país estão indo à bancarrota. Porque, claro somos nós, leitores-heróis, que salvaremos as livrarias da má-gestão e do modelo viciado que vigora. Porque óbvio que o problema se resolve quando amarmos os livros e visitarmos mais livrarias.

Mas proponho um novo desafio das livrarias, um pouquinho mais crítico. Antes de comprar o livro e postar fotozinha e videozinho no Instagram, é preciso cumprir os requisitos expostos nas próximas notas.

DESAFIO 1

Por trás do preço do livro

1) De quanto é a comissão que a livraria cobra da editora sobre o preço de capa de seu livro desejado? Depois, 2) compare preços de distintas livrarias e o valor da comissão que é cobrado. 3) Cruze com o preço do mesmo livro. Enfim, 4) descubra em quanto tempo elas pagam as editoras depois de você comprar seu livro desejado. Use todas as fontes necessárias, até os atendentes para isso. E por falar neles…

DESAFIO 2

Em busca dos likes perdidos

… 5) Os atendentes estão satisfeitos com sua remuneração/ condições de trabalho? Por outro lado, eles gostam de livros? Se não, por que trabalham ali? 6) Pergunte como funciona o processo de escolha dos títulos. Em seguida, 7) descubra se existe algum tipo de curadoria que define o que é vendido na livraria? 8) Verifique se a livraria loteia espaços especiais para editoras. Cobram por isso? Se sim, qual o critério expor os livros nos  melhores espaços? 9) Além disso, pergunte se essa livraria é aberta a atividades culturais e valoriza a produção independente. Finalmente, 10) você acredita que essa livraria está preocupada com bibliodiversidade, representatividade etc.?

Pronto: avalie as repostas e bote os pontinhos que achar que vale. Agora, compre o livro, poste a foto, justifique sua escolha e espere os likes. Só alegria. Feliz 2019.

Texto publicado originalmente na coluna Mercado Editorial, do Suplemento Pernambuco,  de janeiro de 2019.

1 Comentário
  • Pingback:Livrarias e bibliotecas falsas - Wellington de Melo | escritor
    Postado às 11:05h, 04 fevereiro Responder

    […] Já falei sobre isso anteriormente: a defesa das livrarias não deve se confundir com a defesa de um modelo de consumo que não leva em conta a sustentabilidade econômica nem a dignidade dos trabalhadores envolvidos em determinado setor. Muito já se falou de comércio justo e consumo ético e os dilemas e desafios do mercado editorial brasileiro[3]Este texto do Jaime Mendes aponta questões importantes e encaminhamentos válidos., mas eu insisto em uma coisa: as livrarias são um espaço de formação de consumo, mas também de construção de uma identidade comunitária, na perspectiva de uma cultura leitora. […]

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