Perdido – resenha no Diario de Pernambuco

Wellington de Melo lança hoje seu novo livro, Estrangeiro no labirinto, com a proposta de provocar e confundir o leitor

Por Fellipe Torres

A estética parece ser uma das obsessões na obra do escritor pernambucano Wellington de Melo. Ciente do poder das palavras quando bem colocadas, ele as escolhe como ingredientes de uma elaborada receita. Desde a estreia entre os autores publicados, em 2007, tomou para si a classificação (nobre, mas às vezes limitante em relação ao universo de leitores) de poeta. De fato, a verve lírica é a marca maior do autor de cinco livros do gênero, mas durante todo esse tempo esteve latente e oculta a faceta pulsante de romancista. Após sete anos debruçado sobre a primeira obra de maior fôlego, ele finalmente lança, hoje, Estrangeiro no labirinto (Confraria do Vento, 356 páginas).

Diario de Pernambuco, 18 de dezembro de 2013Formado por emaranhados de narrativas, o romance é mesmo projetado para causar estranhamentos e sensação de estar perdido (como o título, aliás, já antecipa).  Como em uma jornada aventureira cujo caminho percorrido ganha do destino no quesito relevância, o texto é forjado por imagens bastante claras, porém fluidas, fugidias. Nele se refluidas, vezam personagens e narradores atribulados: prostituta, assassino de aluguel, juiz homofóbico e pedófilo, além de outras vozes não identificadas, em interações com o leitor (à moda de Machado de Assis).

Vertigem, confusão mental e irritabilidade são efeitos colaterais possíveis durante a leitura de Estrangeiro no labirinto. Quem segura o livro é provocado a todo instante por Wellington ou por suas criaturas, com incômodos propositais, palavras pela metade ou  censuradas, páginas em branco para representar silêncio/protesto, caracteres espalhados pelo texto como em uma poesia concretista. “A arte só faz sentido se estiver imbuída nesse espiríto de descoberta, de recriação da linguagem. O livro é um mergulho nessas possibilidades de brincar com o gênero romance, levá-lo ao limite”.

A cada punhado de páginas, o enredo revela o intenso trabalho de pesquisa do autor, com incansáveis referências a nomes da psicanálise (Carl Jung, Samuel Roth), da física (John Archibald Wheeler, Erwin Schrödinger), do ocultismo (Eliphas Lévi), e a ideias do tarô e da cabala. Guardadas as proporções, a forma de pegar emprestado tantos elementos da não ficção remete ao épico Moby Dick (1851), de Herman Melville. No caso de Estrangeiro, no entanto, a viagem é psicológica e a condução da trama é toda costurada com a poesia imbricada no fazer literário de Wellington de Melo.

Trecho

O livro em minhas mãos, agora não mais. Do alto da igreja o anjo me observa sob a luz leitosa do poste. O anjo levava um cacho de uva em uma das mãos. Dionísio sorrindo através da face desse anjo. O cordeiro de Deus aprisionado na pedra sobre a porta central. Quero chorar, não há tempo. Falta pouco, eu sei. O vento quase arranha a pele, carícia às avessas; a garra de um pássaro, cascos de algum animal desconhecido em meu pescoço; o asfalto morno do centro da cidade; a terra e o fogo enfim unificados: caminho nessa tarde esquecida por um tapete de pelos macios que desaparece a cada passo.

+ Obra

  • O autor levou sete anos até chegar à versão final do romance.
  • Nesse período, o livro teve pelo menos quatro versões.
  • Cerca de um terço do material escrito foi descartado da versão final.
  • Cada capítulo do livro é aberto com cartas do tarô.
  • O arcano “O louco” é o único que não aparece nenhuma vez.
  • Os personagens do juiz, do assassino e da prostituta não têm seus nomes citados nenhuma vez no livro.
  • Quando seus nomes aparecem, são ocultos com uma tarja.
  • O título Estrangeiro no labirinto tem 22 letras, como o alfabeto hebraico.
  • São 22 os arcanos maiores do tarô.

Matéria publicada no Caderno Viver (fragmento), do Diario de Pernambuco, 18 de dezembro de 2013

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