Diferenças identitárias

DIVERSIDADE

Editar é controlar o discurso. Se a distribuição de editoras ao longo do país diz muito sobre a concentração desse discurso, é, por outro lado, sintomático que não se tenha notícia de uma editora totalmente indígena no Brasil. Em 2016, houve uma tentativa de criar uma editora alternativa entre os índios Xucurus de Pesqueira, Pernambuco. O escritor Bibi Xukuru (foto) publicou o livro Xukuru do Ororubá: A luta não vai parar, lançado no Festival de Inverno de Garanhuns. Mas o projeto, aparentemente, foi interrompido após a expulsão da colaboradora branca que ensinava técnicas de encadernação artesanal. É compreensível: anos de opressão e violência marcaram a comunidade de uma forma que, mesmo as trocas que talvez gerassem frutos benéficos são rechaçadas.

PONTO DE VISTA

SOBRE A INVISIBILIDADE

O argumento anterior revela certa arrogância branca: o fato de não termos notícia de Bibi Xukuru não significa que ele não siga produzindo nem publicando. Talvez Bibi enfrente o mesmo problema de outros escritores e escritoras que se autopublicam: a invisibilidade. Mas a medida da invisibilidade talvez só faça sentido pela régua do mercado literário tradicional, esse senhor senil.

CAMINHOS

“O mercado precisa deixar de ser só mercado”

A miragem estimulada no campo literário — e movida em grande parte pela vaidade — é que a legitimação da obra e do escritor se mede pela presença nas gôndolas das grandes livrarias, pela quantidade de resenhas, pelas premiações, pela participação em feiras, festas e afins. Sem ingenuidade: isso ajuda a pagar as contas e é bom que exista. Mas se a literatura aprofunda a experiência humana sobre a Terra, o futuro da vida literária reside na busca pelos microespaços, a volta do encontro. Para existir, o mercado precisa deixar de ser só mercado, ou pelo menos fingir que não é. Fiquei curioso por saber sobre Bibi Xukuru. Procurei a página dele no Facebook. Foi feita depois do lançamento de seu livro e atualizada recentemente. E lá estava: Bibi Xukuru, escritor.

Texto publicado originalmente na coluna Mercado Editorial, do Suplemento Pernambuco, agosto de 2018.

 

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