Síndrome do impostor

MEIO LITERÁRIO

Na coluna de junho do Suplemento Pernambuco falei sobre o Efeito Dunning-Kruger, que vem a ser o oposto da Síndrome do Impostor: nessa, pessoas extremamente qualificadas têm sua autoestima abalada e sentem-se como farsantes, dando menos valor a seu trabalho do que deveriam.

Num tempo que é o da idiotização e da bravata, quando se tenta ganhar disputas pelo grito e não pelo argumento, a Síndrome do Impostor pode virar caso de saúde pública. No meio literário, não faltam exemplos de autores e autoras cuja personalidade avessa aos jogos de interesses ou aos artifícios de salão acaba por mantê-los no ostracismo. Um autor como Gilvan Lemos teria sido muito mais lido não fosse sua dificuldade de lidar com a famigerada vida literária? Outra questão sem resposta.

ESCRITA

O ruído fora do livro

Em um trecho de Maternidade, de Sheila Heti, convidada da última Flip, a narradora cita a Síndrome do Impostor. Já se sabe do transtorno que afeta mulheres que desejam filhos, mas se acham incapazes de desempenhar as tarefas de mãe.

Muitas escritoras e escritores competentes também acham que não podem gerir seus filhos de papel. Há tanto ruído para além da tela, das revisões, das provas finais. Fosse só isso…

FÓRMULAS

“Viver é perigoso”

De que lado do muro você está? Você é um “Dunning-Kruger” ou um “Impostor”? É uma falsa questão. As coisas não são tão simplórias como o que escrevi pode sugerir. Não acredito em fórmulas para gerir uma carreira, e me contradigo dizendo que buscar o equilíbrio entre trabalhar com a materialidade da palavra, lidar com o público e viver talvez seja o caminho.

Sim, viver, que é troço diferente das duas primeiras coisas. Ficar pulando de festa em festa em busca de agentes literários, editores ou oportunidades não é viver. Enfurnar-se eternamente num quarto cheirando a mofo, sentindo-se o gênio da raça incompreendido que escreverá o próximo Ulisses, tampouco. “Viver é perigoso”, já diria Rosa. Será que ele se considerava um impostor? Na dúvida, viva. Não há melhor combustível para a literatura.

Texto publicado originalmente na coluna Mercado Editorial, do Suplemento Pernambuco,  de agosto de 2019.

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