Crônicas Marcianas

Novas Crônicas Marcianas

IDENTIDADES

Dia desses me convidaram para palestrar num seminário sobre Literatura Marciana Setentrional na universidade. Antes de aceitar, perguntei se havia alguma apresentação sobre as Crônicas marcianas do Bradbury, colega também do norte. Não, me responderam. Declinei. Na ocasião, expliquei aos bem-intencionados organizadores que sequer cria na Literatura Marciana e que, aliás, minha crença na própria Literatura não ia bem das pernas. Na hora, adverti: minha presença não ajudaria crentes nem marcianos.

Afinal, como determinar, pela materialidade do texto, o que distinguia efetivamente um autor marciano de uma região ou de outra? Os temas, a cor local, o sotaque, certo ethos poderiam garantir se estávamos diante de um ou de outro sistema literário? Se pego texto escrito por um(a) autor(a) marciano(a) anônimo(a), seria possível precisar se se tratava de um(a) autor(a) setentrional ou meridional, por exemplo?

ADJETIVOS

Regionalismos marcianos

“É importante fortalecer a produção local”, disse um dos organizadores do seminário. Concordei. Mas é chato quando marcianos meridionais acrescentam, ao menos, dois adjetivos a toda literatura que não é a marciana meridional.

E a literatura marciana bípede setentrional, a literatura marciana anfíbia oriental etc? Nunca é só literatura marciana, boa ou má. Nem é só literatura.

VISIBILIDADE

“E a Lua ainda brilha”

Para refletir: não se veem marcianos meridionais defendendo uma literatura meridional ou se chamando de autores meridionais. O que fazem é apenas literatura marciana, chamam-se apenas de autores marcianos. Talvez porque se sintam no centro do sistema literário marciano — esse locus amoenus.

Por outro lado, não seria mais válido autores marcianos setentrionais fazerem o mesmo, rejeitarem o rótulo?, eu sendo ingênuo. “Seriam absorvidos pelo sistema literário marciano hegemônico, seriam invisibilizados”, respondeu o coordenador do seminário. Tive que concordar de novo.

Por isso tudo, tenho pensado em me mudar para Marte Setentrional. Dizem que lá o fascismo anda em baixa. “Aqui, não se criam!”, disse o coordenador. Espero que minha recusa em participar do seminário não atrapalhe a saída do visto.

Texto publicado originalmente na coluna Mercado Editorial, do Suplemento Pernambuco,  de setembro de 2019. O último subtítulo é uma referência ao conto homônimo do livro Crônicas marcianas.

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