As coisas, o medo e depois

Por Cristiano Ramos [1]Jornalista e crítico literário. Texto publicado originalmente no site NotaPE

Nada que consideramos antigo está realmente morto, desde que resida em memória ou lugar algum, por mais submerso. Como na lição de Eliot, a tradição não remete a algo que ficou para trás, mas a um passado que se faz presente. E, como a crítica é rica em decretar falsos óbitos, como saber qual das coisas velhas realmente se mostra incapaz de retornar ao palco da contemporaneidade, de viver agora?

Ainda assim, arriscamos aqui que anacrônico hoje é o poeta desinteressado nas reflexões sobre o fenômeno literário, da natureza da escrita à criação, da recepção dos leitores em geral a dos críticos. Há quem diga que esse era o mote lá na segunda metade do século XX, que os novos poetas buscam superar essa fase de hipertrofia teórica, que o “pós-moderno” é negação de qualquer projeto ou medida. Preferimos a ideia de que esses jovens pensam sim a poesia, racionalizam sobre o poético, e, quando desdenham, querem muito comprar. Atitude que dá um passo além, pois, ao invés de descartar a teoria, termina por provocá-la a atravessar os muros acadêmicos e demais espaços especializados.

Wellington de Melo não é dos que desdenham. Pelo contrário. De modos díspares, cada um dos seus títulos expõe a eminência da reflexão. A estreia, com O diálogo das Coisas (2007) [2]MELO, Wellington de. O diálogo das coisas. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2007., aconteceu dentro da academia, quando a poeta e professora Lucila Nogueira já testemunhava que ele tinha “o amor da palavra entranhado na carne”. Nesse livro, toda uma seção, A letra, é prova da atenção que Wellington dedica aos mistérios e práxis de sua lide: o anseio de vencer a fugacidade, as jornadas da forma, a paixão que exige versos que sangram, que não se deixam mineralizar:

Ourives?
Não.
A palavra não se doma.
Dorme, apenas.
A penas.
Doce lâmina etérea
anzol que fisga lembranças perdidas
Gargantilha que aprisiona
pensamentos
num tempo
elíptico.

Ourives?
Não.

O diálogo das coisas acaba mesmo por “sangrar” (a palavra sangue e afins aparecem mais de uma dezena de vezes em 32 poemas) tanto quanto mostra coisas ou diálogos. Dedicação ao fazer e pensar poético demonstra a maturidade que Lucila Nogueira anuncia, mas depõem contrariamente as repetições que nem sempre trazem diferenças, que não acrescentam, além do uso de algumas imagens extremamente gastas, como em “É na escuridão dessa hora / que se esconde minha amargura”, ou em “Na solidão de um casarão vazio / morreu um pedaço do meu passado”. Nada disso impede que constatemos sua inegável vocação, além de ser possível encontrar já ali, na partida, elementos que trabalhará coerentemente nas obras posteriores.

Em prefácio da obra seguinte, [desvirtual provisório][3]MELO, Wellington de.  [desvirtual provisório]. Bauru, SP: Canal6, 2008., a saudosa Maria do Carmo Barreto Campello registra as duas concepções que a poesia de Wellington apresenta e tenta conciliar: “se o provisório reflete um dos signos do nosso tempo, isto é, a ausência de um chão definitivo, de raízes de permanência, o virtual nos coloca frente à substituição do real pelo próprio virtual, ou seja, por uma realidade paralela” (in Melo, 2008:7).

Da m@quina ao pó, tudo chega e se despede (temporariamente) de Wellington através da palavra, da escrita. Seus versos, mesmo quando tratam de outros tópicos, sugerem incessantemente a questão: qual é e será o lugar da poesia?Ainda que a derradeira parte do livro indique “o retrato de um ser que é apenas superfície, sem espessura, coberto por uma camada cinza que mata, penetrando aos poucos” (Sena, 2009)[4]WANDERLEY, André de Sena. Resenha de [desvirtual provisório]. Recife: 2009. Disponível em:<https://www.wellingtondemelo.com.br/site/category/imprensa/critica/>. Acesso em 2 de jan. 2010., a resposta que fica é quase uma liturgia, uma homilia em que Wellington passa, sim, sua fé na força humanizadora da poesia, independente dos suportes, dos meios que a veiculam:

debaixo do teclado
do pl@stico estéril do teclado
sob a superfície fria & rombuda de cada tecla
ainda h@ restos de pele pelo & sonho.

Em O peso do medo (2010)[5]________. O peso do medo. Recife: Paés, 2010., afinal, terceiro ato dessa viagem, a linguagem chama o leitor a pontuar os versos, a lhes dar ritmo (que decerto será bem diferente do imaginado pelo autor), a viver também o som e a fúria de um mundo que parece às vésperas do fim. Mundo que, assim como a poesia, a fome e as bocas, não acaba.

Lucila Nogueira usou de imagens antagônicas/ complementares e metáforas para dar a dimensão do espaço que a poesia ocupa em Wellington de Melo. Poesia que é “sonho de comunicar calando, de segredar revelando, pensamento e metáfora a atrair a terras desconhecidas desde o pégaso da infância à mandrágora subterrânea” (Nogueira in Melo, 2007:7). E como ignorar o lume aceso por essa conjunção de contrários, metáforas e signos em rotação? Como não visitar o poeta-crítico mexicano Octavio Paz e, assim, especular sobre um quarto ato nesse percurso de Wellington – vaticínio que, confirmado ou não, pode contribuir para análise de sua obra.

Paz acreditava que, na época moderna, desaparecia o mundo como mitologias, como imagens. E, em lugar, chegavam as realidades da técnica, condenadas a serem negadas por novas realidades. Essa é a primeira conseqüência. A segunda é a aceleração do tempo histórico, que culmina numa negação do tempo infinito, da mudança como processo evolutivo, marcado pelo progresso e pela renovação. Assim, “o mundo pode acabar quando menos se espere. […] a mudança já não é sinônimo de progresso, mas de repentina extinção” [6]Paz, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

De tal maneira, sob a emergência da fragilidade técnica e à beira da extinção, aonde pode ir a poesia?

Concluo: a técnica muda a poesia e mudará cada vez mais. Não podia ser de outro modo: sua intervenção afeta a transmissão e a recepção de poemas como os métodos para compô-los. Mas essas mudanças, por mais profundas que nos pareçam, não a desnaturam. Ao contrário, devolvem-na à sua origem, ao que ela foi a princípio: palavra falada, compartilhada por um grupo. (Paz, 1991:105)

Poesia que é reconciliação, retorno à unidade, dos signos e do sensível. Pois ela reflete o homem de nosso tempo, um “emissor de símbolos”, em que dois se destacam: o abraço dos corpos e a metáfora poética, que são o princípio e o fim.

No primeiro: união da sensação e da imagem, o fragmento apreendido como cifra da totalidade repartida em carícias que transformam os corpos num provedor de correspondências instantâneas. Na segunda: fusão do som e do sentido, núpcias do inteligível e do sensível. [...] Somos bem pouca coisa e, não obstante, a totalidade mexe conosco, somos um sinal que alguém faz a alguém, somos o canal de transmissão: através de nós fluem as linguagens e nosso corpo se traduz a outras linguagens. [...] A floresta das significações é o lugar da reconciliação. (PAZ, Op. Cit. 1991:114-115)

Se no primeiro título, O diálogo das coisas, temos um vislumbre da obra que pode Wellington de Melo, nos outros dois o poeta perpassou os temas elencados por Paz.

Em [desvirtual provisório], como notou André de Sena, encontramos uma “inadequação à realidade típica do modo ultrarromântico, com as tradicionais hipérboles do discurso melancólico disfórico” (2010:516)[7]WANDERLEY, André de Sena. Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico. Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CAC. … Continue reading

A melancolia de Wellington se opõe à “euforia tecnológica típica do hodierno”. Aquela fragilidade de um mundo sustentado na técnica é evidenciada. N’O peso do medo, o sentimento de extinção vai além da técnica, espreita o autor em qualquer esquina, cotidianamente. A fúria é réplica, uma desesperada resposta ao medo, sentimento explicitado logo no texto de abertura, “Arte poética”:

[...] morto ventre de livros oróboro prateleiras silêncio pó esse livro não é carne e sangue é mais uma máscara que se arrasta já nada há pra dizer nada esse livro mais medo menos fúria mais fuga de terminar devorador de umbigos ou de seguir cinza ou de ser um dos jovens sérios de fernando monteiro ou de ser raiz e tumba [...]

A estrutura do livro constrói a impressão de inevitabilidade, medo e fúria são dois satélites/reações que parecem guiar o leitor ao fim das coisas, a “um varal de esperanças apodrecidas”, onde a violência já não poderá mais, em que o poeta não poderá, tampouco o leitor. Até que, no instante final, em “Art  r Rog  rio”, como resume Bruno Piffardini,

...] a curva atinge seu ponto mais descendente, voltando a voz resignada do poema “Wellington de Melo” – a fúria parece arrefecer, o texto toma pela primeira vez no livro um formato comum de versos e estrofes. Wellington retornou de sua epopeia e tudo volta ao lugar. Mas agora ele está plenamente consciente de seu medo. Sua fúria não foi catártica, e sim contemplativa como um grande exercício zen. A fúria de vinte e nove poemas endureceu seus terminais nervosos para que seu medo conhecido e consentido revele sua coragem.

O próximo passo seria a conciliação? Como no pensamento de Octavio Paz, terá Melo se lançado no mar revolto de nossa longa era da racionalidade, passado pelas grandes imagens e seu ocaso, pela técnica e sua fugacidade, pelo sentimento de negação da negação, de fim das coisas. E, forjado por medos e fúrias, nesta ultramodernidade, estará pronto para criar sobre a esteira da conciliação, terá vontade e meios de levar à sua poesia o esforço de unir símbolos e sensível, que tanto ele tem demonstrado em suas atividades como agitador cultural?

Vencido esse ciclo, completado o giro, talvez Wellington de Melo consiga voz, material e combinação que o elevem acima da média. Caso não, continuará progredindo e se estabelecendo como bom poeta que é – e isso já é bastante. 

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References

References
1 Jornalista e crítico literário. Texto publicado originalmente no site NotaPE
2 MELO, Wellington de. O diálogo das coisas. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2007.
3 MELO, Wellington de.  [desvirtual provisório]. Bauru, SP: Canal6, 2008.
4 WANDERLEY, André de Sena. Resenha de [desvirtual provisório]. Recife: 2009. Disponível em:<https://www.wellingtondemelo.com.br/site/category/imprensa/critica/>. Acesso em 2 de jan. 2010.
5 ________. O peso do medo. Recife: Paés, 2010.
6 Paz, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
7 WANDERLEY, André de Sena. Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico. Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CAC. Teoria da literatura, 2010.
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