As coisas, o medo e depois

Nada que consideramos antigo está realmente morto, desde que resida em memória ou lugar algum, por mais submerso. Como na lição de Eliot, a tradição não remete a algo que ficou para trás, mas a um passado que se faz presente. E, como a crítica é rica em decretar falsos óbitos, como saber qual das coisas velhas realmente se mostra incapaz de retornar ao palco da contemporaneidade, de viver agora?

Ainda assim, arriscamos aqui que anacrônico hoje é o poeta desinteressado nas reflexões sobre o fenômeno literário, da natureza da escrita à criação, da recepção dos leitores em geral a dos críticos. Há quem diga que esse era o mote lá na segunda metade do século XX, que os novos poetas buscam superar essa fase de hipertrofia teórica, que o “pós-moderno” é negação de qualquer projeto ou medida. Preferimos a ideia de que esses jovens pensam sim a poesia, racionalizam sobre o poético, e, quando desdenham, querem muito comprar. Atitude que dá um passo além, pois, ao invés de descartar a teoria, termina por provocá-la a atravessar os muros acadêmicos e demais espaços especializados.

Wellington de Melo não é dos que desdenham. Pelo contrário. De modos díspares, cada um dos seus títulos expõe a eminência da reflexão. A estreia, comO diálogo das Coisas (2007), aconteceu dentro da academia, quando a poeta e professora Lucila Nogueira já testemunhava que ele tinha “o amor da palavra entranhado na carne”. Nesse livro, toda uma seção, A letra, é prova da atenção que Wellington dedica aos mistérios e práxis de sua lide: o anseio de vencer a fugacidade, as jornadas da forma, a paixão que exige versos que sangram, que não se deixam mineralizar:


Ourives?

Não.
A palavra não se doma.
Dorme, apenas.
A penas.
Doce lâmina etérea
anzol que fisga lembranças perdidas
Gargantilha que aprisiona
pensamentos
num tempo
elíptico.

Ourives?
Não.

OFÍCIO, Melo, 2007:31

O diálogo das coisas acaba mesmo por “sangrar” (a palavra sangue e afins aparecem mais de uma dezena de vezes em 32 poemas) tanto quanto mostra coisas ou diálogos. Dedicação ao fazer e pensar poético demonstra a maturidade que Lucila Nogueira anuncia, mas depõem contrariamente as repetições que nem sempre trazem diferenças, que não acrescentam, além do uso de algumas imagens extremamente gastas, como em “É na escuridão dessa hora / que se esconde minha amargura”, ou em “Na solidão de um casarão vazio / morreu um pedaço do meu passado”. Nada disso impede que constatemos sua inegável vocação, além de ser possível encontrar já ali, na partida, elementos que trabalhará coerentemente nas obras posteriores.

Em prefácio da obra seguinte, [desvirtual provisório], a saudosa Maria do Carmo Barreto Campello registra as duas concepções que a poesia de Wellington apresenta e tenta conciliar: “se o provisório reflete um dos signos do nosso tempo, isto é, a ausência de um chão definitivo, de raízes de permanência, o virtual nos coloca frente à substituição do real pelo próprio virtual, ou seja, por uma realidade paralela” (in Melo, 2008:7).

Da m@quina ao pó, tudo chega e se despede (temporariamente) de Wellington através da palavra, da escrita. Seus versos, mesmo quando tratam de outros tópicos, sugerem incessantemente a questão: qual é e será o lugar da poesia?Ainda que a derradeira parte do livro indique “o retrato de um ser que é apenas superfície, sem espessura, coberto por uma camada cinza que mata, penetrando aos poucos” (Sena, 2009), a resposta que fica é quase uma liturgia, uma homilia em que Wellington passa, sim, sua fé na força humanizadora da poesia, independente dos suportes, dos meios que a veiculam:

 

debaixo do teclado
do pl@stico estéril do teclado
sob a superfície fria & rombuda de cada tecla
ainda h@ restos de pele pelo & sonho.

“SUBCUTÂNEO, Op. Cit. 2008:54

Em O peso do medo (2010), afinal, terceiro ato dessa viagem, a linguagem chama o leitor a pontuar os versos, a lhes dar ritmo (que decerto será bem diferente do imaginado pelo autor), a viver também o som e a fúria de um mundo que parece às vésperas do fim. Mundo que, assim como a poesia, a fome e as bocas, não acaba.

* * *

Lucila Nogueira usou de imagens antagônicas/ complementares e metáforas para dar a dimensão do espaço que a poesia ocupa em Wellington de Melo. Poesia que é “sonho de comunicar calando, de segredar revelando, pensamento e metáfora a atrair a terras desconhecidas desde o pégaso da infância à mandrágora subterrânea” (Nogueira in Melo, 2007:7). E como ignorar o lume aceso por essa conjunção de contrários, metáforas e signos em rotação? Como não visitar o poeta-crítico mexicano Octavio Paz e, assim, especular sobre um quarto ato nesse percurso de Wellington – vaticínio que, confirmado ou não, pode contribuir para análise de sua obra.

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