Cultura e linguagem

Esta semana trabalhei com meus alunos de espanhol do terceiro ano o conceito de cultura. A primeira coisa que parecerá estranho é o fato de dar uma aula sobre o conceito de cultura na disciplina de espanhol. Explico: faz muito tempo que não dou aulas para o terceiro ano limitando-me a listas de vocabulário, leitura e resolução de questões de vestibulares ou esquemas gramaticais. Acredito que o aprendizado de uma língua estrangeira deve servir para a ampliação do universo cultural do estudante em qualquer área que lhe interesse. Por isso trago para minhas aulas textos dos mais diferentes temas, de preferência aqueles que eventualmente são discutidos em outras disciplinas – eu sei, chamam isso de interdisciplinaridade.

No caso específico desta aula, eu a havia programado pois sabia que este tema faz parte do programa de sociologia. É interessante como os alunos sempre dizem “Estamos vendo isso em Sociologia”, mas quando você pergunta o conceito, ainda existe uma grande dificuldade por parte deles de definir cultura. O texto que utilizei é bem interessante, porque traz várias definições de cultura através do tempo. Desde o conceito de cultura se confundindo com civilização, passando pelo conceito romântico de cultura na perspectiva do conhecimento adquirido pelo indivíduo até uma perspectiva mais social do conceito de cultura.

No que diz respeito ao conceito romântico, há algumas coisas que me chamam a atenção. Primeiro, é comum que se chame alguém de ‘culto’ quando domina determinadas áreas do conhecimento, como a História, a Literatura, a Filosofia etc. Um físico nuclear é, no senso comum, muito mais conhecido como alguém ‘inteligente’. Como se sabe, o conceito de ‘culto’ e ‘inculto’ é sociologicamente inválido, uma vez que todos os humanos nascemos, a princípio, fora da natura. Somos todos, desde os primeiros momentos de vida, impregnados de discurso. Todo aquele que está inserido em uma cultura é, dessa forma, culto. É uma visão que impede grandes distorções e preconceitos, mas precisa ser aprofundada.

O texto que trabalhei com meus alunos traz dois conceitos mais atuais de cultura: um que assume como cultura como o “conjunto de atividades de uma determinada sociedade”; o segundo, que me parece mais acertado, diz que cultura, para alguns estudiosos, se restringe aos valores que um povo atribui a sua práxis. Por que concordo com essa visão?

Basta pensar que em Recife há um monte de gente que come sushi, ouve axé music e vive no shopping center. No entanto, se perguntarmos se essas atividades formam parte da chamada ‘cultura pernambucana’, ou ‘cultura recifense’, alguns titubeariam em responder. E isso se dá porque o que eu considero como minha cultura é muito mais uma abstração filtrada daquilo que me representa enquanto pertencente a minha comunidade. Ao mesmo tempo em que esse conjunto de atividades de uma sociedade, visto por alguém de fora de um sistema, representa determinada cultura, para aqueles que estão dentro de um sistema, esse assumir determinados atos como identitários de sua cultura é um processo mais lento. Algo semelhante acontece, creio, quando vemos aquelas novelas ‘nordestinas’ da Globo e ‘sabemos’ que a variante utilizada pelos atores não nos representa, não passa de uma pantomima.

Aqui é quando não temos como dissociar o conceito de cultura do conceito de linguagem, já que essa é um produto da interação humana. Através da linguagem se constrói a cultura, da mesma forma que a linguagem é moldada através dos atos humanos e de sua interação. Cultura e linguagem, dessa forma, se confundem, dependendo do prisma através do qual observamos o fenômeno.

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3 Comentários
  • Thiago Pininga
    Postado às 17:04h, 27 fevereiro Responder

    O exemplo é esse mesmo. São duas culturas diferentes e um individuo pode se reconhecer mais na cultura do outro que na sua.

    Significa que não há cultura superior ou inferior, se lavarmos a questão ao nível do individuo, do particular. Por outro lado, significa que as culturas são diferentes na medida em que se pode escolher entre uma e outra.

    Vamos que vamos.

    Abço.

  • Thiago Pininga
    Postado às 12:47h, 27 fevereiro Responder

    Massa Wellington,

    O conceito romântico é de superioridade da natureza humana frente a natureza “natural”, mire-se na estética hegeliana e em algumas cartas de Goethe, quando este tateava ainda uma teoria. Outra curiosidade é que outro nome para Cultura em alemão é Formação. Volto a Hegel para dizer sobre um capitulo da Fenomenologia do Espírito sobre o conceito de Alienação (Marx viu bem, embora acreditava numa sociedade livre dela), quando a consciência percebe-se alienada justo pela formação/cultura/linguagem e é impossível fugir a isto, por mais crítico que seja, será sempre, sempre, sempre alienação (formação/cultura/linguagem).

    A figura do homem “culto” me parece ser historicamente moderna, iluminista (excetuando-se Rousseau)em detrimento do “especialista” contemporâneo. Obviamente hoje confunde-se o especialista e o culto como se fossem o mesmo.

    A cultura como praxís é interessante, gosto dela. Já a relação de reconhecimento do sujeito com a cultura gera outro problema porque, quixotescamente, um pernambucano de pais africanos pode se sentir mais japonês que um norte-americano. Não apenas sentir como agir também.

    Vamos que vamos.

    Abço.

    • Wellington de Melo
      Postado às 15:24h, 27 fevereiro

      Mas isso do reconhecimento é importante. Cito o exemplo de um amigo espanhol que se diz ‘inadaptado’ à Europa: sente-se mais brasileiro hoje do que espanhol, embora viva aqui há só uns 10 anos. No entanto, ele sabe quão alienígena, paradoxalmente, é. A condição do outsider é algo que me intessa muito, na verdade. Dá uma boa conversa.

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