Trauma de infância

Havia treinado durante algumas semanas as manobras da baliza. Fazia já todos os movimentos com destreza invejável. Desfilaria no sete de setembro na ala especial dedicada a esses quase acrobatas. Roupa especial, minha mãe pagara um pouco a mais para fazer o capricho. Ia ficar bonito.

Na manhã do desfile, correria. Não lembro por que motivo me atrasei. Estava em cima da hora ainda não estava pronto. Minha mãe me arrumou, ensacou a camisa no calção, peguei a baliza e saí correndo. Poderia ir por cima, pela rua principal, mas era o caminho mais longo e eu não queria me atrasar mais ainda. Peguei o caminho pela rua de baixo. Não sei nem se era rua; estava mais para um córrego lamacento. Enquanto corria desesperado com a baliza na mão, meião branco e kichute no pé, o óbvio aconteceu: pisei numa poça de água, pretinha, pretinha. O meião e o calção não eram mais brancos. Salpicou até um pouco na camisa. Desespero. Voltei para casa – chorava? – e pedi para minha mãe dar um jeito. Que jeito? Trocou a roupa especial pela da educação física. “Não vão aceitar!”, profetizei.

Minha mãe me acompanhou até o local do desfile. A ouvi tentar convencer a coordenadora para que desfilasse na ala das balizas. Nada feito. Só com a roupa especial. Mas ainda poderia  desfilar… na ala das bandeirinhas. A ala das bandeirinhas consistia essencialmente de meninos e meninas com a roupa da educação física, segurando – e abanando – estupidamente umas bandeirinhas do Brasil feitas de papel. E todo o treino, todo o esforço para fazer as manobras? Tudo em vão. Desfilei a contra-gosto na ala das bandeirinhas. Não lembro bem, mas deve ter sido um dos últimos desfiles de que participei.

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